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Cresci a ouvir uma música que alertava: “nunca voltes ao lugar onde já foste feliz”. “As regras da sensatez” foi uma das boas combinações da dupla Rui Veloso/Carlos Tê, mas eles que me perdoem – assim como quem criou este mito – não vou nessa conversa.

Por isso mesmo quando a minha linda blonde girl me disse que teríamos um casamento familiar em Maputo, não hesitei. Na verdade, hesitei um pouquinho, afinal o noivo é siciliano (parece que também é sul-africano, mas quando se ouve Sicília já não se consegue pensar em mais nada) e nestas coisas há que ter cautelas e muito respeitinho.
De qualquer forma embarquei destemido para mais uma aventura multicultural: moçambicanos, portugueses, sul-africanos, escoceses, chilenos, alemães, turcos, italianos e até sicilianos.

Como eu já conhecia os cantos à casa nada me pareceu muito estranho: a praça da Paz denominada “Robert Mugabe”; as estratosféricas desigualdades sociais; a confusão de carros e obras nas ruas; um alemão à espera que o governo resolva as crateras da estrada – felizmente a alegria e simpatia da população continua a atenuar as dificuldades crescentes.

A elegante cerimónia decorreu sobre a égide de uma parente próxima de uma famosa e bonita ex-primeira ministra africana. A esbelta noiva, qual Sophia Loren, apesar dos diversos pretendentes a uma fuga, manteve-se na cerimónia, não fosse o noivo fazer uma oferta irrecusável a alguém… A juíza colocou as célebres questões pré-matrimoniais, entre elas algumas peculiares: como o facto de pessoas com atrasos mentais não poderem casar. Ninguém se manifestou a respeito, num exemplo evidente do clima de receio imposto pela poderosa teia política do noivo, Dom Rossi Corleone Tizzone.

Felizmente todos os grandes ditadores mundiais acabam por sucumbir em momentos de vergonha: foi assim quando o negro Jesse Owens venceu dois ouros para desespero de Hitler nos Jogos Olímpicos de 1936; do mesmo veneno bebeu Salazar quando caiu em descrédito após a fraudulenta vitória do regime sobre Humberto Delgado nas eleições de 1958; e não poderia ser diferente com Dom Tizzone, já que no momento de fechar o casório, a noiva revelou debilidades psíquico-mentais que numa sociedade transparente não permitiriam o selar do matrimónio. A bela jovem chegou mesmo a colocar a aliança na mão errada do noivo, num claro laivo de insanidade presenciado de forma conivente por todos os convidados.
Como nos filmes, na vida real sempre surgem homens destemidos e nestes casos dois tentaram combater a verdade: este que vos escreve e o seu chauffeur pessoal, o pacato Tio Marquinhas.

Em busca de respostas, conseguimos interrogar temporariamente a governanta da família da noiva, mas Lady Irene Bettencourt manteve-se serena mesmo quando ameaçamos raptá-la e fugir para a África do Sul de onde solicitaríamos um resgate ao seu patrão, Sir Camilo Hopkins. A fidelidade com que a governanta se manteve em silêncio foi cativante mas o que nos fez desistir dos nossos intentos foi a forretice do senhor. Duvido que pagasse mais de 100 paus pelo resgate e isso não chegava nem para pagarmos a gasolina até à portagem.

Decidimos recorrer à mãe e à tia da noiva. Mas depois de entrarmos no quarto onde a noiva se preparava para a boda, rodeada de enlouquecidas familiares latinas, do sexo feminino, que berravam desesperadas, desistimos dos nossos planos. Naquele momento percebemos a mão fechada de Sir Camilo e finalmente libertámos Lady Irene. Só nos restava uma opção: rezar para ter filhos homens.

Em criança uma bola de futebol entretém uma data de meninos, já as meninas precisam da Barbie, do Ken, da casa da Barbie, do babyliss da Barbie, da casa de campo do Ken, se a Barbie se divorcia do Ken precisam da pensão alimentícia das crianças da Barbie e é uma chatice. A estocada final deste processo é quando as filhas vão crescendo e um pai acaba por lutar arduamente não pelo pão de cada dia – que isso tem carbohidratos e engorda – mas pela base, rimmel e pó bronzeador, pelos cremes que resolvem todos os problemas da humanidade e por aquela básica saia preta de cintura subida – todas as mulheres necessitam de uma, dá sempre jeito.

Sir Camilo Hopkins com quatro mulheres em casa não se pode dar ao luxo de andar a esbanjar papel em resgates de governantas e desse ponto de vista a sua forretice é compreensível. Só dessa forma se entende que este singelo cidadão esteja anualmente a liberar as suas preciosas filhas aos primeiros candidatos que aparecem. No ano passado cedeu a mais velha a um stalker turco de 2 metros que a perseguiu persistentemente torturando-a com vídeos do Fenerbahce. Este ano liberou a do meio para um siciliano que a perseguia nas aulas de matemática e no futuro teremos novidades: a mais nova e mais desvairada roubou o bouquet da irmã. Sim, roubou. Agarrou aqui não se aplica, já que esta jovem desequilibrada, agrediu uma criança de 7 anos – com um golpe de MMA – e furtou o generoso bouquet para pressionar o inocente germânico com quem se relaciona a levá-la ao altar. Trata-se de um dois em um, distúrbios de uma pessoa perturbada e o seguir de uma tradição: nunca um branco recém-chegado a Moçambique regressou efectivamente solteiro ou sem deixar o nascimento de um bébé mulato bem encaminhado.

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Alucinada familiar prestes a agredir uma miúda de 7 anos para roubar o bouquet

Como nem só de histórias rocambolescas e anormalidades decorreu o matrimónio é de frisar que também houve cultura e o poeta Joaquim Barreiros esteve presente em momento musicais de grande lucidez como “Bacalhau à Portuguesa”, “Garagem da Vizinha” e “A Cabritinha” – que com o meu terrível inglês, viu o seu refrão ser traduzido para um gigante amigo sportinguista como: “I like to suck on the tits of a goat”.

De salientar que no casamento também havia gente normal, como aquele jovem que chegou em cima da hora porque ficou cerca de 10 horas barricado na própria quarto, enquanto ocultava de sua mãe a presença nos seus aposentos de uma trintona asiática – A senhora não saía e ele foi ficando, ficando… Ou um casal composto por um mulato croquete que já foi rapper e uma branca chique que já verteu lágrimas por pagodeiros, roliços e loiros. Ou ainda de um musculado pescador bondoso que abriga em seu lar uma prima que engravidou de outrem e agora necessita de amparo. Que belas entrevistas não faria a Cristina Caras Lindas com esta gente.

Fora isto correu tudo bem: revi os amigos e a família, tarraxei uma loira, andei de chinelos, fui à piscina e seguindo os ensinamentos do meu avô (“Comer é na casa dos outros, na nossa é roubar”) comi de borla e com fartura. Felicidades aos noivos, – em especial ao noivo, tenho máximo respeito/medo por si Dom Tizzone –, a todos os presentes e até ao próximo matrimónio.

PS: Não há que ter medo de voltar a lugares onde já se foi feliz. Nunca mais será igual, mas pode ser especial de uma maneira diferente.

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SONY DSCBruno Gomes

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3 thoughts on “Da Sicília com amor

  1. Boa Bruno! Só te falto a descrição das iguárias….
    Concordo plenamente com a tua última frase …..”…Não há que ter medo de voltar a lugares onde já se foi feliz. Nunca será igual, más pode ser especial de uma maneira diferente.”

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