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Foi com um enorme orgulho – e de cachecol ao pescoço – que acompanhei todo o trajecto da equipa de juniores do Benfica na UEFA Youth League, a Liga dos Campeões sub-19. E foi com um misto de sensações que assisti ontem à pesada e injusta derrota na final (0-3) às mãos do Barcelona. Faltou apenas o pequeno último passo numa trajectória imaculada e recheada de momentos altos. O futebol foi injusto para os comandados de João Tralhão e o resultado expressivo é completamente enganador, como o tinha sido na meia-final contra o Real Madrid. Mas em ambos, a vitória assentava melhor aos encarnados. Paciência…

Não dá para não ficar orgulhoso destes miúdos. Esta também é, como sabem, uma das minhas lutas. Os frutos do Seixal há muito que me fazem crescer água na boca e já aqui escrevi sobre isso por variadas ocasiões. Todos os sucessos da miudagem encarnada são uma vitória para mim e a confirmação daquilo que há muito defendo: há ali potencial tremendo que tem, obrigatoriamente de ser aproveitado. Por isso, a prestação dos sub-19 na UEFA Youth League só vem confirmar dois pontos de que há muito falo: que há qualidade e talento a rodos, nos mais variados escalões, mas que ainda falta o último passo naquele que é o processo de formação – a chegada à equipa principal.

É bom recordar, para os mais distraídos, que nenhum (repito, nenhum!) dos miúdos da equipa de juniores que esteve na fase final em Nyon tem sequer um minutinho na equipa principal do Benfica. E poucos são os exemplos (João Nunes, Guzzo…) daqueles que já chegaram sequer à equipa B das águias. No Barcelona, por exemplo, são cerca de meia dúzia os jogadores com idade júnior que já jogam regularmente junto da equipa secundária catalã, no exigente segundo escalão do futebol espanhol. E nos que jogaram ontem no Estádio de Colovray, um deles (o extremo Traoré) já actuou pela equipa principal na Liga dos Campeões.

É certo que estamos a falar na melhor formação do mundo, onde tudo serve de exemplo. Mas se analisarmos outros casos vemos que o Benfica é mais a excepção do que a regra. No Arsenal, Serge Gnabry foi promovido à equipa principal depois de brilhar na UEFA Youth League e hoje é presença assídua nas convocatórias de Arsène Wenger. No Schalke, semi-finalista da competição jovem, há exemplos de jogadores com idade júnior que já nem participaram nesta competição, sendo hoje figuras da equipa principal com 17 e 18 anos de idade (o prodígio Max Meyer é o melhor exemplo). Até no riquíssimo (em dinheiro e em plantel) Manchester City, o português Rony vai aparecendo, ele que brilhou intensamente na Champions de juniores.

A questão que fica é: os nossos são menos talentosos? Não são, certamente, como ficou provado. São é vítimas de uma política onde não há espaço para potenciar jovens talentos nacionais. É pena porque prodígios como Nuno Santos (aquele pé esquerdo!), Gonçalo Guedes (primeiro ano de júnior e o melhor jogador da final), Romário Baldé (outro no primeiro ano de júnior e que vale muito mais do que aquilo que mostrou contra o Barcelona), Rochinha (talento a rodos), João Nunes (aquele estilo de centralão com a camisola dentro dos calções e braçadeira no braço), Guzzo (que tanta falta fez na final…) ou Estrela (que não tem sequer contrato profissional) muito fizeram por merecer sonhar com uma chegada rápida aos seniores, uma oportunidade junto dos graúdos.

Não quero que joguem todos. Nem acho que todos têm aquilo que faz falta a um jogador de equipa principal do Benfica. Mas se o mérito de um for premiado, a motivação desse e de outros cresce exponencialmente. Em Portugal – não só no Benfica – há um receio enorme do monstro chamado ‘queimar-etapas’. E por isso é raro ver um juvenil nos juniores ou um júnior na equipa principal. Mesmo que o juvenil seja tão talentoso que ultrapassar cinco adversários do seu escalão seja o seu pequeno-almoço.

Estaria extremamente orgulhoso (mais ainda…) se os jovens encarnados tivessem conseguido a vitória final. Mas não me deixo enganar. O mais importante não era a vitória. Nos escalões de formação há muito que se sabe isso. Na formação destes jogadores faltará sempre o passo da consagração, a não ser que a política se inverta por completo. Luís Filipe Vieira desceu ao relvado para levantar os miúdos que choravam desconsolados no relvado. Uma atitude bonita, à presidente. Mas aqueles rapazotes merecem mais do que palmadinhas nas costas. Merecem sonhar. Só que nas circunstâncias actuais do Benfica, sonhar é quase proibido. Porque quase não há exemplos a seguir.

Curioso que acompanhei o jogo da final da UEFA Youth League pela ESPN Brasil. E os comentadores brasileiros, pouco conhecedores da realidade encarnada, apontavam Rochinha como um talento a aparecer na equipa encarnada muito em breve, dando como exemplo os 30 milhões de cláusula de rescisão (que nada valem na prática). Disseram maravilhas sobre Gonçalo Guedes e ficaram deliciados com os pormenores de Nuno Santos. Desfizeram-se em elogios às pérolas encarnadas mas quando referiram que o Barcelona dispõe de 17 jogadores na equipa principal vindos de La Masia, preferiram omitir o facto de o Benfica ter apenas quatro, com escasso tempo de utilização (André Gomes, André Almeida, Sílvio e Ivan Cavaleiro). Os brasileiros estão habituados a ver jovens talentosos. Por lá, aparece um craque em idade prematura a todo o instante. Mas um deles não perdeu a oportunidade de falar maravilhas de Bernardo Silva, apelidando-o de ‘Messizinho do Seixal’ (parece que o rapazote já é reconhecido lá fora). E ficaram maravilhados com os frutos do Seixal. A ponto de admitirem que o Benfica foi melhor durante quase todo o jogo, contra o todo-poderoso Barcelona. Soube bem ouvir. Assim como soube bem ler as crónicas do AS ou da Marca depois da expressiva vitória do Benfica sobre o Real Madrid. Faltaram adjectivos para Rochinha, Guedes ou Nuno Santos na imprensa espanhola, que apontava estes como joias a pegar antes que o valor do seu passe inflacionasse de forma drástica com a chegada à equipa principal. Não sabem nada espanholitos…

No domingo, o Benfica vai sagrar-se campeão nacional. Se houver na Luz sensibilidade e uma verdadeira aposta na formação, que se aposte nalguns jovens da casa nos dois jogos a realizar já com o título no bolso. Bernardo Silva está à frente de todos. Uma época fantástica no Benfica B e no segundo escalão do futebol português fazem com que mereça a oportunidade de também ele ser campeão (o rapaz nem dormia durante dias, tal o seu Benfiquismo…). Ainda na equipa B, Bruno Varela, Hélder Costa, Cancelo ou até João Teixeira poderiam aparecer (mesmo que alguns com poucos minutos) só para terem também a oportunidade de ficar com o título nacional no seu currículo. E depois, um ou dois destes miúdos que brilharam pelos juniores. Nuno Santos, Rochinha, Gonçalo Guedes e João Nunes são nomes a ter em conta. Imaginem a força e a motivação que lhes dariam com um prémio deste género… Perdão, não seria dado. Eles fizeram por merecer.

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Joni Francisco

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