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É típico – e vício sobejo – do capitalismo espraiar-se até envolver com os seus tentáculos todas as áreas da acção humana: onde há pulsação pode haver dinheiro, onde houver uma ideia ou corrente haverá pretexto para a mercantilizar. Basta somente inventar como fazê-lo e, depois, seguir os habituais trâmites do Marketing ideológico. O capitalismo, motor sócio-económico e político da nossa mundana concepção de ser, preocupa-se com tudo: com a solidariedade, com a ecologia, com a pobreza, com a transparência, até, imagine-se, com a nossa própria realização filosófica – basta atentarmos aos «slogans» publicitários que nos vendem carácter a preços baixos, sustentados em produções massivas, levadas a cabo algures na Indonésia, China ou Bangladesh. «Be yourself», «Impossible is nothing», «Image is everything», «For successful living», tretas do género, um autêntico mar debruado a esterco decorativo, fundado na dubiedade ideária e na inexpressividade intelectual das massas.

Tudo se vende, tudo se comercializa, tudo tem aura económica. Tudo pode ser emprestado, especulado, duplicado e espoliado. A filosofia de mercado, despida de filosofias, é directa e impositiva: «Buy or die» é a mensagem subliminar que aprendemos, que o «mainstream» mediático nos lecciona com afinco e repetida insistência – é o modo de viver, «Just do it». O motor capitalista supervisiona, sobranceiro, a diáspora da corrente a todos os espaços da acção humana, preenchendo o Bem e o Mal, quero com isto dizer, por um lado esvaziando recursos, explorando e arrasando simetrias, por outro preocupando-se com a imagem deixada, jogando para cima de nós éticas púdicas, pressupostos normativos de louvar e contraposições que, sendo claramente contrárias à sua acção, pretendem mitigar a sua selvajaria capitalista declarada. «Se comprar este móvel, 1 euro reverte a favor da preservação da floresta tropical da Amazónia», e por aí adiante, não vale a pena explanar sobre a infinidade de exemplos.

Este capitalismo apura-se constantemente: percebeu já que para subsistir indominável não lhe basta vender materialisticamente, apelando somente a conceitos básicos de Marketing, como o desejo, a inveja ou o sucesso. É necessário transaccionar ideologias, comercializar conceitos, correntes e disciplinas éticas mais aprofundadas. Trabalhar na sombra do produto, moldar a visão e a percepção dos consumidores, estruturar a conjuntura social em benefício do seu modelo de negócio e, muitas vezes, adaptá-lo ao pensamento dominante, consoante o custo/benefício do planeamento e da acção. Quase sempre é uma batalha ganha – as resistências alternativas ao poder avassalador do mediatismo vendilhão são ténues quando comparadas com a capacidade vinculativa deste último. Actualmente, e mais que nunca, o capitalismo dominante preocupa-se com o Mal que faz (seja à sociedade assimétrica, na corrupção, na agiotagem, na especulação, na ditadura financeira, na opaca linguagem mercantil e económica, no desemprego, na pobreza, na banalização ideológica e na secundarização dos princípios colectivos da democracia) agindo concretamente na comercialização (o que apenas sabe fazer e do qual nunca se pode desvincular) da sua acção benfeitora, na comercialização do Bem aparente.

É somente uma estratégia generalizada de Relações Públicas, uma tentativa de limpar a suja imagem decorrente do sujo trabalho que lhe é inerente. É, por isso e ao mesmo tempo, o facto provado do reconhecimento próprio de um capitalismo que se sabe porco, imundo, injusto, corrupto, desequilibrador, criminoso e destrutivo. Num simples exemplo, o capitalismo dá 1 euro para a preservação de uma Amazónia que o próprio capitalismo devasta a troco de biliões. Mas como a populaça só lê «slogans», certamente que a Amazónia só pode beneficiar da ética ambientalista do capitalismo. No Haiti, país que me fez redigir sobre este tema, o capitalismo solidário vende a mensagem ao mundo mas para lá do «slogan» aparente (um «slogan» é sempre uma pura aparência, desculpem-me marketeers e publicitários e copywriters…) a realidade é bem diferente. O Bem que se vende fazer não passa de puro Mal: «Não existe ninguém a ajudar o Haiti. É o Haiti que está a ajudar toda a gente (…) A ajuda internacional ao Haiti é a grande mentira que a média conta», afirma Franck Seguy, que desvenda que o país, devastado pela catástrofe natural, tem sido sim utilizado para exploração industrial e para a manufacturação a baixíssimos preços, a bel-prazer das poderosas nações, fingidoras de benfeitorias e ajudas internacionais. A expropriação de terras agrícolas da posse dos camponeses tem sido uma constante, para além da propagação da escravatura local: «O Haiti é visto como espaço para produzir, não como espaço para consumir. O trabalhador haitiano na zona franca, que produz as camisas, jeans ou ténis, nunca vai consumir esses produtos. Por quê? Porque o salário dele, o salário do haitiano hoje, é de 200 gurdes (cerca de US$ 5) ao dia. Quer dizer, está se utilizando do Haiti para produzir, mas não se enxerga o Haiti, o trabalhador haitiano, como um consumidor».

O conselho é este, simples e curto e directo: nunca preste atenção a um «slogan». A realidade está longe de ser assim tão redutora.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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