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Parece que hoje é sexta-feira santa, dia para recordar a morte e ressureição de Jesus Cristo. Dia, portanto, para enfardar ovos de chocolate, amêndoas, folares  e outras especialidades de doçaria regional que por ora não me vêm à memória.

De facto, nunca percebi porque todos os feriados e datas religiosas têm de ser celebrados com quantidades infinitas de açúcar. Nunca percebi mas também nunca contestei, assim como a maioria das pessoas – cristãos incluídos.

Quase que me atreveria a dizer que se a estes 90% de devotos fossem feitos testes psicotécnicos para efeitos de crença, a todos eles o resultado na parte das associações da páscoa seria igual: em primeiro lugar férias, em segundo o folar, em terceiro as amêndoas, em quarto os ovos e em quinto a morte de Jesus.

Não que isto seja uma ordem de prioridades, mas às vezes sabemos como a boca se consegue deixar apanhar e fugir para a verdade, sobretudo se o assunto meter comida e doçaria pelo meio.

 É quase involuntário, e não há como fugir a isso. Portugueses do país inteiro fazem autênticos sacrifícios em prol da “religião”. Sabemos como uma procissão de uma qualquer cidade minhota se pode tornar num martírio. Não se trata apenas da colocação do Ave Maria em “modo repeat”. Trata-se sobretudo da sua entoação por parte daquelas dezenas de milhares de minhotas, a pender para o fortes, com as suas vozes natural e tipicamente estridentes. Vozes que, já sendo irritantes durante todo o ano, elevam os níveis dos seus decibeis ao cubo durante aquelas duas horas.

Por maior que seja a devoção, vamos lá ser sinceros e responder frontalmente: o que pensam todas aquelas pessoas, sobretudo as que para lá são arrastadas, enquanto caminham quilómetros e quilómetros e se estorricam ao sol? Qual é o verdadeiro leitmotiv para terem acordado mais cedo do que em qualquer outro dia normal de trabalho (estando em período de férias) para ouvirem senhoras gordinhas aos berros?

Como ninguém tem coragem para o dizer, eu digo: sim são as amendoas, sim são os ovos de chocolate, sim é o borrego e sim é o folar. Naquele momento, as pessoas não conseguem pensar em mais nada que não seja comida. Claro que a importância do acto religioso para quem se move pela fé está lá presente, mas a partir de determinada altura a larica acaba por falar mais alto.

Quem beija uma Cruz beijada por outros infinitos e desconhecidos beicos, tem de o fazer pensando numa hipotética recompensa, que forçosamente tenha valor  “indemnizatório”  que compense o herpes labial, as aftas e outras infecções entretanto adquiridas.

Muitas vezes, um pacote de amêndoas “tipo francesa” pode não chegar para premiar tamanhos “sacrifícios” feitos em nome da fé. Até porque há quem as prefira com chocolate no interior. Este é de resto um dos debates mais polémicos por norma despoletados nesta quadra. Lá está, porque ninguém se senta à mesa para discutir a verdadeira data da última refeição de Jesus Cristo com os Apóstolos. As famílias sentam-se para comer. E depois, lá mais para o fim da tarde, interpelam-se sobre os seus doces preferidos, e o porquê da amêndoa “tipo francesa” ser a verdadeira amêndoa da páscoa, ao contrário da de chocolate, mais uma de muitas invenções modernas.

Outra prova de que a fome se sobrepõe sempre a tudo o resto nestas coisas das festas religiosas são as próprias simbologias e tradições criadas à volta destes eventos. Todas as crianças sabem que os coelhos são símbolos da páscoa, mas nenhuma sabe explicar porquê. Na verdade, elas só sabem que os têm de comer, até porque desde que nasceram assim foram estimuladas.

O “coelinho da páscoa” não serve para mais nada que não seja para ser comido. É esta a mensagem que passa. Porque aos miúdos dá-se-lhes chocolates em forma de coelhos, praticamente a prepará-los para a vida real. Uma espécie de tropa para o verdadeiro coelho da páscoa. Não o coelhinho, pequenino e de chocolate, mas o grande, saltitante e orelhudo, e que no final das procissões passo do tacho para o tabuleiro, sobre as mesas das tradicionais famílias portuguesas. Acompanhado com batatinhas assadas que é para ficar ainda mais apetitoso.

O verdadeiro coelhinho da páscoa é este, que serve de prato típico, em Portugal, da quadra pascal. Diz a internet que a simbologia se deve à sua “natureza fecundadora”.  Ou seja, só um bicho que há para aí aos magotes podia personificar uma data religiosa, como que a penitenciar a espécie pela sua capacidade de reprodução. Se há muitos, não faz mal comer.

No final do fim-de-semana (deste que aí vem), tudo se irá resumir a comida: o folar estava fofinho, não muito seco; as amêndoas estavam crocantes, apesar de eu preferir as “tipo-francesa”; o chocolate dos ovos era óptimo, não sabia a ranço como os do ano passado; e o coelhinho estava muito bom, tenrinho, as batatas é que podiam estar um pouco menos duras.

Se o balanço destes três dias não for mais ou menos como este, esta páscoa, tendo servido para reforçar os laços com a religião e com a família, não terá sabido a grande coisa. E a tal recompensa nunca será suficiente para fazer esquecer a gritaria das minhotas, os quilómetros a pé e o beijo da Cruz beijada por milhares de pessoas.

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André Cunha Oliveira

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