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A morte é incógnita ironia que nos faz pensar. Pensar na sua razão de ser e naquilo que a faz acontecer, sem que nunca consigamos obter respostas para além das insuficientes justificações científicas ou das fanáticas falácias religiosas. Como poderemos saber o que se passa depois da vida se a morte é um ponto sem retorno? São suposições infundamentadas que em tudo dependem da crença pessoal de cada um, mas o que acontece em vida bem diante dos nossos olhos é factual e permite-nos retirar algumas conclusões. E é aí que ressurge a ironia e, em última instância, a revolta.

Sou portador de uma crença religiosa incaracterística, imagino uma força superior que paira sobre as nossas auras mas cuja especificação vai muito para além daquilo que as minhas palavras conseguem exprimir. Sei que este espírito magno, a que poderemos atribuir simbolicamente o nome de Deus, em nada se assemelha aos princípios da religião dos homens que é difundida em massa pelos quatro cantos da terra e menos ainda à instituição da Igreja, teoricamente ligada a Deus mas praticamente regida pelos princípios do capitalismo. É esta a verdade que torna possível que um padre cobre 15 euros para proferir o nome do falecido na sua missa do 7.º dia, ou que faz com que a incrível história de que em vésperas da beatificação de João Paulo II uma estátua construída em honra do antigo Papa tenha desabado repentinamente em cima de um jovem de 21 anos retirando-lhe a vida num ápice, quase como uma reedição do terramoto de 1755 que matou mais de 90 mil lisboetas exatamente no dia de todos os santos.

Factos curiosos e revoltantes apenas para quem se deixa guiar pelas premissas de uma religião que foi fundamentada e que continua a ser administrada por homens tão humanos como eu ou como o caro leitor que se deixa indignar por estas palavras. Apenas as datas e os demais dogmas que nos são apresentados como indiscutíveis possibilitam que tamanhas e infelizes coincidências, como alguns lhes chamam, de facto aconteçam dia após dia, alimentando o culto da eterna salvação que arrasta milhões de pessoas para religiões e ceitas mais ou menos mediáticas, mais ou menos obscuras.

É exatamente este processo de atemorização desenvolvido em torno da incontornável realidade da morte que é explorado em larga escala pela Igreja como forma atrair os fiéis ao seu encontro. Foi socialmente instituído o sentimento de que a morte é para ser temida e que o lugar no céu tem que ser reservado em vida através de muitas idas à igreja, muitos padres-nossos e inúmeras aves-marias. Talvez a grande ironia da morte seja desenvolvida pelos homens em plena vida através de uma deturpada mistificação que apenas torna este momento muito mais difícil para quem dele se aproxima. Se nos agarrássemos mais à vida e menos à religião talvez tudo decorresse com mais naturalidade e harmonia, talvez o medo e o sofrimento por antecipação se pudessem tornar quase insignificantes, e talvez todo este raciocínio perderia a sua razão de ser.

diogo-taborda-desenho-e1360007654750Diogo Taborda

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