Home

A estupidez governamental, aliada à ruminação (ora acéfala ora corporativista) intelectual da comunicação social não tem limites. Eu sempre defendi que, se este Governo queria, logo em 2011, aplicar o plano de desmantelamento do Estado Social à medida que aumentava brutalmente o desemprego e devotava milhares à pobreza, deveria ter sido o mais cru e sincero possível: «Malta, enganámos-vos à grande: dissemos que não íamos aumentar os impostos mas o que de facto vamos fazer é um violento empobrecimento geral do país, extinguindo o Estado nas suas concepções democráticas mais básicas (Saúde, Educação, Justiça e Solidariedade Social) e pagando as loucuras da banca à base do rendimento dos trabalhadores». Assim não haveria espaço para malabarismos retóricos e metáforas económicas ou refreios jornalísticos ao estilo de José Gomes Ferreira, o falso paladino da instrução económico-financeira – uma espécie de «upgrade» de Camilo Lourenço.

Porque, irremediavelmente, a narrativa que entremeou a austeridade foi, desde o subir do pano, um chorrilho surreal de dogmáticas teorias científicas, todas elas cheias de razão tecnocrata e gráficos credíveis incríveis e linhas que sobem e descem e se confundem na boca de quem quer confundir. Pelo meio da desconversa, o fácil é ludibriar. Com uns rascos Excel mafiados se enganaram os tecnicamente parvos, com a cançoneta cassete (repetitiva) da filosofia do crime (viver acima das possibilidades) e do castigo (punição austeritária), se enganou grande parte do povo. No meio da corrida do empobrecimento e da decadência social, pouca gente se questionou sobre a legitimidade da dívida, que tanto sangue tem feito correr no acto de a fazer sanar. Quanto dela é resultado de contratos Swaps exóticos, favorecimentos corporativos, comportamentos desregrados da banca, parcerias público-privadas altamente danosas para o bem público e opacas actividades promíscuas entre a esfera empresarial e privada e o complexo estatal?

Acrescendo a tudo isto: quanto do aumento da nossa dívida pública se deve à carga de juros a que estamos atados, todos os anos, como consequência do programa de austeridade desenhado pela União Europeia e executado pelos capangas da coligação? No meio da cortina-de-fumo bufada pelo Governo, a verdade fica sempre por dizer e não será (nem nunca foi) na televisão que essa verdade será, eventualmente, cuspida. O que se gizou foi uma abrupta transferência de rendimentos, do sector público para o sector privado, salvando a riqueza de uns poucos à custa do rendimento da classe média. O que se sucedeu foi, simplesmente, uma reacção da classe dominante às palpitações e sobressaltos de um mercado global deplorado, assimétrico, podre e prestes a explodir na cara do sistema capitalista, tão canibal quanto ilusório. Salvaguardou-se o domínio do status quo financeiro (banca, seguradoras, agências de rating, agências de financiamento, grandes grupos empresariais com investimentos nesses quadrantes) à base de um constrangimento económico que tinha como alvo a exploração do rendimento do contribuinte. Para tal, usou-se o Estado como marioneta – o Estado como via para a redistribuição de rendimentos. Assim, cruelmente e à cara desfeita, até o fazer mirrar. Morrer.

Por entre os destroços de um país já miserável e pedinte, envergonhado e indigente, as gentes ainda conseguem encontrar eufemismos pedantes para dissertarem sobre o actual estado de coisas: «Será que teremos uma saída limpa?» – Que merda significa isso? Que ligação com o mundo real tem essa frase? Quem, no seu perfeito juízo, acredita que passaremos disto para outra coisa qualquer, senão para algo ainda mais deficitário e fascista? O anacrónico relógio de Portas anunciava a saída da Tróica: atingimos o totalitário vazio do simbólico. Nada significa mais nada. Apenas desentendimento, matéria vã e oca, vácuo e escuridão. O Documento de Estratégia Orçamental proclama, hoje, um aumento do IVA para 2015, mais carga pesada no contribuinte – que horas serão ‘isso’ no utopístico mentiroso relógio de Paulo Portas?

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE!

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s