Home

Não sou macaco mas gosto muito de banana. O que não gosto é da inversão de valores e do aproveitamento de determinados momentos quando se tocam em temas mediáticos. E infelizmente na última semana duas polémicas deste género despertaram a minha atenção.

A denúncia da Juventus à cotovelada de Enzo Perez ao defesa Chiellini foi a primeira. O caso gerou uma onda de protestos que foi muito além do simples universo clubista e criou indignação nacional. Até um movimento de boicote à final da Liga dos Campeões – apoiado por várias figuras com responsabilidade social – se gerou com o seguinte slogan: “Se a UEFA rouba o Benfica, o Benfica não pode permitir que se faça a Final da Champions em nossa casa. Junta-te a nós para não permitires este roubo!”

abola

Uma capa que diz muita da qualidade da informação noticiosa do jornal

Então vamos por partes: ponto 1 e mais importante de todos, Enzo Perez agrediu ou não o central italiano? As imagens são claras e o argentino ao contrário do transalpino, que o empurrou de forma faltosa, foi mais longe e com uma cotovelada, numa atitude que até deveria merecer uma chamada de atenção do Benfica – não dignifica a camisola e com a expulsão poderia ter prejudicado o trabalho da equipa – agrediu o adversário. Uma situação que felizmente para o Benfica passou despercebida aos olhos da equipa de arbitragem. A atitude irreflectida de Enzo era merecedora de vermelho directo, mas o jogador escapou.

A partir daqui tudo o que vem em sequência faz parte do rol de alarvidades típicas do nosso anedotário nacional.

A Juventus queixou-se à UEFA legitimamente – afinal teve um jogador agredido – mas não foi a única equipa, já que os encarnados também apresentaram queixa do mesmo lance. A imagem que se passou em Portugal foi a seguinte: “ Os bandidos da Juventus fizeram queixinhas para roubar o Benfica tirando injustamente o Enzo de jogo.” Esta patética visão não é novidade já que antes a imprensa nacional tratou de denegrir Andrea Pirlo traduzindo de forma surreal uma frase simples do maestro italiano, que foi maltratado durante dias, por palavras que não proferiu. Esta pseudo notícia da RTP espelha na perfeição o ridículo do nosso comportamento perante uma situação em que não temos o mínimo de razão – http://bit.ly/1ig2906

Até o normalmente sensato Carlos Daniel veio a público atacar veemente o adversário dos encarnados. Ora, que a Juventus tem um passado sombrio e para lá de suspeito já todos sabemos. Contudo é importante não esquecer que pagou por ele: desceu de divisão, perdeu os títulos que havia conquistado e Luciano Moggi – director desportivo da Vecchia Signora de então – foi preso e irradiado do futebol. O que mais precisa a equipa italiana fazer para quando for penalizada poder reclamar? Uma questão que deixo no ar a todos aqueles comentadores que atacaram o carácter das conquistas bianconeras e fizeram questão de frisar que o emblema de Turim deveria ter vergonha de se queixar: vocês vivem em que país?
Se não sabem, eu recordo-vos: Portugal!! Aqui neste cantinho da Europa nós que temos internet fazemos uma busca rápida e descobrimos que existe, um clube nacional que venceu títulos durantes décadas baseado em corrupção e compadrio e que é comandado por um líder que se não é parente de Luciano Moggi, pelo menos utiliza os mesmos expedientes.

Quando vejo a febre com que as declarações de Daniel e outros foram partilhadas nas redes sociais com frases como “Muito bem”; “Partiram completamente a Juventus”, “Revoltem-se e partilhem” só me dá tristeza de desfrutar deste nosso patriotismo bacoco. Em vez de partilharmos essas alarvidades deveríamos era interrogar estas idóneas e corajosas figuras da comunicação social, onde estavam (e estão) quando em Portugal aconteceu tudo o que se passou em Itália só que com punição inexistente? Porque não denunciam? Porque não acusam? Porque não se indignam? Porque preferem lamber as botas das grandes estruturas cá dentro para atacar os irmãos gêmeos do estrangeiro? Talvez por medo, hipocrisia e um regionalismo deprimente. Tudo normal andamos há 14 anos a reclamar do penalty claríssimo de Abel Xavier que não há mal nenhum em defendermos uma cotovelada e aí de quem tenha lata de se queixar. É levar e bico calado! Deixo aqui uma opinião diferente das que ouvi, de alguém de quem na maioria das vezes discordo, mas que neste caso merece algum crédito: http://bit.ly/Q4tgUX

Apresentador-campanha-arrecadar-grife-pessoal_LANIMA20140429_0013_48

Um exemplar das polémicas t-shirts de Luciano Huck

A outra temática que me absorveu o pensamento foi o célebre episódio de racismo de Daniel Alves frente ao Villarreal. O simples gesto de comer a banana – um alimento bem agradável, diga-se de passagem – espantou o mundo e de uma forma natural mostrou a indiferença com que atitudes como a deste adepto merecem ser tratadas. O que se passou em seguida com o lançamento da campanha “Todos somos macacos” não passou de um teatróide montado à espera do primeiro acto. Poderia ter sido uma iniciativa bonita e cativante mas não passou de um golpe de marketing de uma agência brasileira que deve ter gerado milhões que de certeza não serão utilizados para ajudar no combate ao racismo. Muitas caras que andavam desaparecidas ressurgiram, outras com pouco mediatismo aproveitaram a exposição e alguns mais espertos até comercializaram a ideia.

Veja-se o caso do milionário apresentador brasileiro, Luciano Huck, que lançou umas belas t-shirts com a sua marca de roupa, apenas para apoiar a causa a troco de uns simbólicos 69 reais. Num país onde a maioria recebe misérias mensalmente e onde o salário mínimo anda pouco acima dos 700 reais, é uma causa realmente ao alcance de todos os credos e raças.

Para a coisa ficar perfeita só faltava a campanha das t-shirts contra o racismo ser feita apenas por pessoas da mesma raça. E não é que foi isso mesmo que a empresa de Huck conseguiu? Depois da normal chuva de críticas ele lá veio a público, tardiamente, justificar-se: “Não quero e não vou ganhar um tostão com isso. 100% da renda desta iniciativa sempre foi destinada ao terceiro setor.” Aposto que o Neymar também não ganhou um tostão com o lançamento da campanha…

Este episódio chamou a atenção para a descriminação e espero que sirva no mínimo para alterar as punições a quem tome este tipo de atitudes em estádios de futebol. Se isso não acontecer vai ser apenas um acto isolado que serviu para aumentar os bolsos a alguns e dar visibilidade social a outros. Tudo o orbitou em torno deste conceito, não passou de macacada pura que mostrou ao mundo que mais do que macacos, somos todos bananas.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO
ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’
ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

SONY DSCBruno Gomes

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s