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O materialismo é uma doença: global. Típica da decadente globalização, disseminada pelas estruturais comunicacionais vigentes, tornada filosofia única e absolutista da percepção e do entendimento da massa. O materialismo é regra – normativa, transcendente ao ponto de ser a aura mística que ilumina, tanto o complexo capitalista como todos os parâmetros sócio-culturais a si ligados. Vivemos na era da divindade material, onde a objectificação da própria concepção do real turva e absorve toda a adesão aos fenómenos sociais, quer sejam de cariz político, cultural, económico, estético ou até religioso. Para o Homem contemporâneo, tudo adquire a tal aura mercantil, tudo é, portanto, iminentemente transaccionável e descartável: a envolvência materializadora sustenta a vida e torna-a miserável – a conclusão é simples e inequívoca.

O capitalismo, seu mais derradeiro percussor, gerou-se no tempo como um fenómeno abrangente que transpôs os domínios económico e financeiro, colado à conceptualização pelos canais comunicacionais e pela preponderância crescente da publicidade, mecanicamente fortalecido pelo próprio dinamismo padronizado da sua capacidade de reprodutibilidade. Aprofundando-se no estilo de vida de cada um, mergulhando no frágil consciente colectivo e moldando hábitos, vícios, trejeitos, dizeres, pensamentos e compulsões. O materialismo é a miserabilidade dos tempos modernos – a ideia de que só no ímpeto consumista da posse material é que nos podemos realizar enquanto pessoas. O resultado é, como acima apelidei, simples: uma horda de desinterpretados da vida, desajustados da inteligência, presos à aparência, atemorizados com a sua horrível auto-estima, infelizes, inseguros, amedrontados e centrados, ocamente, na sua própria perturbação, com graves dificuldades em relacionarem-se com o mundo que os rodeia.

Tudo isto resulta numa lógica degradação intelectual, mental e social. A falta de solidariedade, o espírito acrítico, a ausência de lucidez de raciocínio, a inacção civil, a híper-valorização de uma axiologia vazia de valores, o egocentrismo infundado, narcisismo e a incapacidade de descortinar para lá do labiríntico pendor consumista que promete aliviar a dor de ser (o materialista inconcebe-se) mas que nunca oferece nenhuma real solução para o desassossego das tais pobres criaturas. Funciona como uma droga – uma promessa sempre adiada de reconforto e bem-estar. Entretanto, sofre também o colectivo social, que gradualmente se desintegra, apodrecendo enquanto a vertigem do embrutecimento avança. Não nos podemos admirar, pois então, que todos os quadrantes da vida em sociedade se tenham degradado a olhos vistos: a política sem ética e transparência, a democracia sem princípios, o trabalho sem simetria, a Justiça sem justiça, a pobreza sem dó e a riqueza de uns poucos. Todos nós temos responsabilidade nesta global miséria – embarcamos na fantasia drogada do materialismo e nos travestimos de gente falsa, postiça, embonecada, simulada, genérica, perigosa e indesejável.

Enquanto vivemos preocupados com a noção do aparente e da projecção materialista que fazemos incidir nos outros, alimentando a competição narcísica e derrotando-nos uns aos outros na dinâmica invejosa do miserável, o mundo avança sob a batuta dos que nos exploram. Drogados e hipnotizados pela estrutura imagética reproduzida (e vendida) pelo consumismo, vivemos padronizados, imitando imitações e repetindo chavões deslavados e reutilizados, na ânsia de provocarmos desejo, inveja e frustração nos outros. Uma apocalíptica miséria franciscana de um jogo onde ninguém sai a ganhar – uma espécie de casino das vaidades. Toda a gente se torna insuportável nesta dialéctica de beco sem saída. Basta ver a perniciosa TV, repleta de gentinha maquilhada e falsa, ornamentada como as árvores de Natal e vazia como o espaço; bastam dois dedos de conversa com a malta do café, alienados moribundos que engoliram a cassete daquilo que viram no programa da tarde, nos noticiários, no pasquim de leitura encomendada, na reprodução acrítica do conteúdo mediático; basta tomar atenção às prioridades das pessoas, desde a mala, da roupa de marca até à cópia do estilo dos falsos heróis; basta ir às redes sociais e ver as meninas aspirantes a Miss Playboy, fazendo beicinhos ridículos, bicos de pato e poses de pornstar, na tentativa de excitar o alheio e de se valorizarem…por não saberem fazê-lo de outra maneira.

Há uma latente frustração dos inaptos. Uma fuga ao real pela via do consumo e da ilusão. Uma adição compulsiva, um frenesim passivo de um colectivo que se esgota dentro do seu próprio amedrontamento, lutando para ser feliz dentro de um labirinto com saídas infelizes, jogando o jogo da derrota, tal e qual um peão desolado. As gentes tornaram-se desinteressantes. Deformadas no intelecto, feias, plásticas, estandardizadas, chatas, aborrecidas, com nada para dizer, sem nada que as faça ouvir.

Vivemos na sociedade da Loura Burra. Homens e mulheres e projectos de homens e mulheres. Tudo objectos, para servir e deitar fora. Virámos travestis da moda da hora. Já agora, espetem uma hashtag e digam que são todos louras burras: acho que iria pegar.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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