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Como afirma o famoso fado, por morrer uma andorinha não acaba a Primavera. Talvez seja verdade, e o vaticínio deixa até subentendido que mais umas poucas de aves poderão também encontrar a morte sem, por isso, ameaçar a estação. A pergunta que importa fazer é óbvia: quantas andorinhas precisam de falecer para que nisso encontremos significado? Qual é o limiar da consciência? Cinco? Cinquenta? Cem? Quantas importam?

O problema do fado, o problema do problema, claro está, é o de se aplicar sobretudo aos Homens. As andorinhas nunca chegaram a entrar na equação. Apontamos insultos ao governo, abanamos a cabeça, damos uns berros numa manifestação, mas talvez ainda pensemos habitar a Primavera, pois que nada fizemos para mudar a estação, verdadeiramente. Afinal, de quantos desempregados mais precisamos para nos convencermos de que algo está fundamentalmente mal? Quantos pobres são precisos para que com eles nos importemos? Quantas pessoas têm, enfim, de experimentar a fome para que isso ganhe significado? Quantos emigrantes são emigrantes suficientes para que isso nos preocupe?

Há dias, o governo exultou perante a muito propalada “saída limpa” do plano de resgate. E o cálculo mantém-se. Limpa? Limpa para os desempregados, cada vez mais acumulados na rua e nos centros de emprego. Ou limpa talvez para os emigrantes, distantes, e seus familiares, expectantes. Ou melhor, sim, naturalmente!, limpa talvez para os sem-abrigo filhos da crise. Limpa, claro, não o esqueçamos também, para essa corja de milionários pensionistas de seiscentos euros. Ou, isso mesmo, sim, limpa para a classe média, espécie em vias de extinção, qual pássaro dodó, sempre sob o curioso e rapinante olhar desse governo furtivo de inspiração colonial e prioridades de viés.  Limpa, enfim, apenas e no máximo — curiosa álgebra esta –, para o mentalmente lesionado plantel governativo, anunciado estertor de condenado.

Que lhes permitamos, então, uma saída limpa para o pátio de peito feito, vendando-os como nos procuram vendar a nós, com essas palavras hoje e sempre explodindo-lhes às portas dos lábios, e façamo-las ecoar nas quatro paredes caiadas, rimando com o bater do cão das armas destravadas. Boa viagem, e que seja bonito!

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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