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[hoje não há imagem; é um texto de luto pela honestidade da palavra]

Demos cabo da escrita. E da palavra. E da racionalidade discursiva. Ao permitir que toda a gente escreva, ao permitir que todos se apropriem da palavra sem olhar ao dicionário ou ao menos à realidade, seguindo assim a destempo e a desmodo, destruímos isto tudo. A escrita e a racionalidade fugiram pelo buraco rasgado na fuselagem do avião em direcção à zona de impacto onde as câmaras já esperam, lá mais adiante, e abaixo.

E se as câmaras estão à espera, nada mais há a fazer; é preciso que o embate se dê.

Porque a palavra é o melhor e o pior sistema que já se desenhou. Pela letra, todos correm o risco de passar por letrados, e o merceeiro por escritor. Não me entendam mal; as mercearias são a base da vida, e não duvido de que mais tempo o mundo duraria com bons merceeiros do que apenas com bons escritores, mas acontece-me ter predilecção por estes segundos.

Quando as palavras de nada valem, de nada valerá também falar, discutir, debater. Tudo, agora, significa isso e o seu contrário. O discurso perdeu o pé e âncora, e agora, no tudo que é tudo, na crónica e na análise, no bitaite continuado, na reacção e na reacção à reacção, já nada é verdadeiramente nada.

Claro que, nessa profusão, este texto com isso se mistura, se submerge, agarrado à barbatana que nada e morre no escuro profundo dos textos ditos e dos desditos. Não lhe aporei, portanto, nem uma linha mais. Que nos salve a literatura!

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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