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Spoiler alert: no Domingo passado, houve eleições europeias e este artigo debruça-se sobre o fenómeno. Bem sei que, revelar aqui à cabeça dois plot twists totalmente inexpectáveis poderá ser desanimador para o leitor. Eu próprio apenas descobri que existia uma União Europeia e respectivas eleições quando me alertaram para a desunião europeia e o seu cooperante fascismo eleitoral. «Um choque», devo dizer – deduzo que 80% da população da Eslovénia tenha dito o mesmo. Em Portugal, estou certo que 70% dos eleitores desmaiaram ao descobrir tão vil surpresa. Depois de desvendados os novelos intrincados do guião, mais vale contar já o fim: os únicos a saber do harmonioso, multi-cultural, democrático e mutual segredo europeu (supostamente comunitário) eram os fascistas e os seus amigos ultra-nacionalistas. Explodidos da mente, certo? Pois é, autenticamente impossível não ficar boquiaberto – à boca das urnas – com este enredo surreal. Uma inebriante ode antitética que explica como pode haver tanta democracia no fascismo e tanto fascismo na democracia.

Se a maioria dos eleitores do actual paradigma democrático já não confia nas suas domésticas lides políticas, muito menos confiará na longínqua abstracção europeia, aquele pomposo parlamento de engravatados munidos de um vazio ocupacional que apenas traduz as simples marionetas que significam os seus deputados. De facto, ninguém sabe já da existência de uma pretensa União Europeia porque, na realidade, ela não existe mais. Trata-se de pura ficção. Os únicos que dão pela sua palpabilidade são precisamente aqueles que seriam, por definição e género, os seus totais antagonistas: as facções xenófobas, as extremas nacionalistas, os neo-nazis e a catrefada indissoluta de fascistas para todos os gostos e feitios – afinal, foi sob a ponte em chamas das eleições europeias que toda esta amálgama retro do revivalismo fascista marchou, triunfal e em clara ascensão sócio-política. No fundo, ninguém melhor que eles compreende a Nova Europa, as suas podridões, os seus laivos ditatoriais, o seu governismo anti-social e promotor de abissais clivagens que extravazam o simples panorama contingencial. Moramos na desunião europeia, na assimetria global dos povos, no esvaziamento político de conteúdo, na furtividade corporativa do sistema financeiro, na pobreza declarada, no racismo crescente, na criminalização transversal do conceito de pluralidade.

Abre-se, para todos estes fascistóides populistas, xenófobos, lunático-nacionalistas e justiceiros, uma tremenda janela de oportunidade sócio-política, escancarada pela insensatez generalizada do próprio projecto europeu. Um falhanço descomunal, caricatura maligna de uma união que não consegue deixar de soar a ironia. Pura. Como se, pela mão da União Europeia, se trilhasse, inexoravelmente, o caminho do neo-fascismo, que deflagra como uma nova manhã plena de Aurora Dourada. De facto, tudo estão a fazer para que esse novo dia irrompa: as eleições foram a expressão da ascensão irremediável da extrema direita – votando (jogando o jogo europeu das mentiras) nos encaminhamos gradualmente para o reinado da ditadura: de novo, irónico, como pode haver tanta democracia no fascismo e tanto fascismo na democracia. Porque, realmente, esta decadente Europa está à medida de quem pretende votar no ópio demagógico dos nacionalismos exacerbados e do isolamento soberano da desconfiança. Desprovida de modus democrático, apenas se limita a ordenar a bel-prazer sob o jugo do interesse particular, vergando os seus povos a uma dominação autocrática. O total (europeu) desinteresse eleitoral é somente lógico. Mil vezes mais que o desinteresse doméstico – o arbítrio da UE, além de inalcançável, é olímpico: não pode ser invectivado pela vontade expressa dos países, marionetas subjugadas: «Portugal e o resgate» é caso óbvio, mais não preciso dizer.

Posto tudo isto, reside nesta incomportável assimetria de autoridade a destruição da reciprocidade democrática que nivela e equilibra as relações entre o poder (legítimo) e os constituintes do seu corpo, o Estado. O povo. As pessoas, os contribuintes, os eleitores. Esta União Europeia ordena e executa sem mediação, debate, sequer um pingo de sensibilidade de gestão e planeamento. Esperará depois uma saudável resposta, banho de democracia nas suas urnas? Impossível. Condu-la ao retornado abismo fascista – o voto de quem compromete o voto futuro, uma cruz no papel, como jogar roleta russa sem nenhuma câmara vazia. Se os governos se tornaram já uma abstracção sem cabeça a decepar (o modelo mais refinado da dominação destas democracias de massas), que dizer dos bastidores europeus? Tal poder está reservado. Mutado e em constante simbiose com o magnânimo sector financeiro – esta Europa está proibida a pessoas estranhas ao serviço. Votar, dentro dos limites deste labirinto de ratos europeus, de nada serve.  É urgente desmembrar o projecto tal como está, e isso não se faz nas urnas desta Europa. É assunto interno. É dentro de portas que os povos terão de ensinar aos seus governos como querem que estes se envolvam no processo europeu, ou se querem sequer entrar nele. Isso começa por uma radical redefinição política e uma desestruturação dos panoramas político-partidários que entopem a pluralidade e a viabilidade democrática.

Achar que votando nas europeias, elegendo uns aleatórios deputados, se consegue dar voz à expressão de um povo nas bancadas do parlamento europeu, é tão irrisório quanto ridículo. Nesse olímpo, apenas a força colectiva de um Estado poderia ter uma palavra a dizer quanto às políticas europeias. Mas para tal é necessário, primeiro, forçar um governo a governar pelas pessoas e para as pessoas em vez de se tornar comparsa de quem nos faz reféns.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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