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Nota prévia: Não se trata propriamente de um paradigma, mas para quê sacrificar a estética a tudo e sermos apenas mais uns na tristonha corrente da vida?
Nota prévia 2: Estive para escrever sobre as europeias, mas o Bruno Falcão Cardoso já o fez com grande mestria, ontem. Achei que o leitor não me perdoaria se depois disso me pusesse a acrescentar pontos, mas deixo-lhe um convite. Leia este texto com as últimas eleições em mente, e talvez haja algo a concluir daí.

Um destes dias, estava eu a comer uma meloa à colherada — o que compreensivelmente me predispõe para reflexões profundas –, quando me dei conta de que as coisas são, evidentemente, por acaso.

O aroma sensualmente adocicado e meloso da meloa, o seu verde carregado, o fresco da sua textura tenra sobre a língua, tudo concorrendo para a delícia dos sentidos… E sobre tudo isso, uma pergunta: Porquê? Ora, uma vez que julgo saber que a meloa não é fruto dado a nascer na secção dos frescos do supermecado — falta de horas de Sol, sem dúvida –, deu-me para me perguntar, a meio de uma colherada, por que és tu, meloa, tão apetitosa?

Certo, certo, os frutos são sumarentos, lindos e deliciosos apenas para que os animais tenham a menos estética tarefa de lhes defecar as sementinhas e assim lhes prolongarem a monárquica linhagem. Mas recuemos mais um pouco, que antes de seres deliciosa, meloa, tu és meloa, de facto.

Onde quero chegar é: por que existem meloas, antes de mais?, uma vez que julgo racional partir do princípio de que a meloa não nasceu para o meu puro deleite numa primaveril sobremesa. Porque foi a meloa incumbida de alimentar os estômagos do mundo? A pergunta, que pode parecer imbecil, está longe de o ser. Podemos até dar voltas à cabeça, enovelar os miolos — como nas histórias que o meu pai me contava em criança –, mas não encontraremos uma razão de ser para as meloas. A meloa não pensa em reproduzir-se, não tem qualquer ponderação nem planeamento familiar. Não se lhe conhece desejo ou ambição, nem tão pouco ódio ou descontentamento particular. Como nós, a meloa também não tem bem a certeza de onde veio, e menos ainda para onde irá, ainda que o resultado das europeias nos coloque a nós mais em xeque do que às arredondadas cucurbitáceas.

Parece-me de uma grande sorte que no mundo exista tanta mercearia, tanta fruta e legume tão desprendidos da vida, tão altruístas e prontos a servir. Com efeito, poderíamos, enquanto espécie, ter aparecido no mais incómodo vazio e termos desaparecido no segundo instante. Tivemos sorte. Havia meloas.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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