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«If you’ve got a lighter or a cell-phone…», assim pedia emoção aos espectadores do Rock in Rio Justin Timberlake, enquanto, ironicamente e sem que o próprio se apercebesse disso, cantava «You can’t start a fire without a spark», 30 anos depois do Springsteen.

Mas o que era verdade em 1984 já não o é hoje, e o que Timberlake diz contradiz o que Timberlake canta. Depois de dominarmos o fogo, substituímo-lo. Nada mais simples, nada mais em linha com a história do nosso desenvolvimento. Mas o fogo, a luz, a chama talvez tenham implicações maiores, pois que o fogo não é apenas a flama, o que, aqui e neste momento, arde e queima.

O fogo é axiomático. Rege o seu sistema de valores, codifica excessos, expurga e consome, forja e aniquila, cria e desintegra. Aprisionar o fogo é mestria; convertê-lo em luz fria — McLuhan concordaria, porque o telemóvel é mais frio do que o isqueiro — constitui um perigo. Expurga-se o calor, o corpo e o sentido para preservar apenas a luz, que é mera ilusão do fogo, simulação do isqueiro e do seu quadro imagético, estético, ético. Como se a possibilidade da queimadura, do perigo da chama, da ameaça da explosão tivesse tomado conta da simbologia do fogo, vagando-o de outras possibilidades e conotações. Mais dramáticas, mais expressivas.

O fogo dominado já não será fogo, mas fogão. Mas eis que o fogo se vinga. Se os telemóveis são os sinais de fumo do nosso séculos, contêm ainda em si a promessa do incêndio: da bateria que explode, do circuito que irrompe em chamas: a onda de choque tecnológica, literal e metafórica, implosiva e simbólica. É apenas por isso que com horror respondemos à inusitada deflagração de um dispositivo móvel no bolso das calças.

Talvez tenhas razão, Justin: «You can’t start a fire without a spark», e no teu concerto não se deu senão o triunfo da simulação, a faísca sem fogo, suficiente para chamuscar os dedos mas deixando incólume a estrutura dos corpos. Walk in, walk out. A ilusão dura o que 50euros podem pagar. Isso não a torna pior, apenas mais profunda. À luz do telemóvel na ponta do braço esticado, farol invertido sobre si, querendo atrair e fazer-se par das barcaças no mar, há algo que o farol e o telemóvel partilham além da luz de presença que emitem: tornam gritante a distância, o necessário afastamento: na plateia do Rock in Rio, os milhares de telemóveis prontamente enfarolados a pedido da aparente divindade sobre o palco — isqueiros, na emissão televisiva, não descortinei nenhum —  tornaram apenas claro foi que, sozinho, longe do palco e de quem, partilhando o mesmo metro quadrado do que eu, não está, de facto, comigo.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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