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Quando há uma pausa numa conversa e o silêncio se instala entre todos, os russos dizem: «nasceu um polícia».

Este é, talvez, sentimento partilhado por todos os povos que experimentaram regimes totalitários; não importa a cor ou as coordenadas dos seus carcereiros. E isso não será desavisado, ainda que o silêncio também seja, as mais das vezes, muito esclarecedor. Ele diz sempre mais do que aquilo que se diz, porque o silêncio diz tudo o que não se pode dizer. Claro que é preciso considerar a possibilidade de haver também muito que não possa dizer-se. O perigo do silêncio, afinal, é de dizer o que quer e o que não quer.

O sentimento russo é curioso, mas não me parece que muito polícia seja capaz de descortinar todas as possibilidades que aqui se jogam. Todo o interrogatório procura uma coisa e uma coisa só: destruir o silêncio com que não sabe lidar.

PARTE II

Em todo o caso, é preciso observar que o silêncio é muitas vezes preferível à palavra. Porque o silêncio é sempre melhor do que o disparate, que muitas vezes chama a si a obscenidade de rimar com a palavra. Esta semana, a deputada do PSD Teresa Leal Coelho deu-nos boa prova disso.

Já o disse, aqui e noutros espaços, que a palavra partilha de uma grave característica com um debate entre idiotas. Por não se distinguir um idiota do outro, isto é, um conjunto de palavras de outro, visualmente, formalmente, tudo surge nivelado por cima, com a expectativa que se tem de que a palavra tenha ainda raízes no real e na honestidade do orador. Como no debate; não se espera nunca ver dois idiotas a esgrimir ideias. E contudo, é o que eles fazem. Teresa Leal Coelho, que não é idiota, muniu-se do poder da palavra para esvaziar as entranhas à discussão.

«Se os juízes do Tribunal Constitucional não aceitam a crítica, não têm condições para exercer o cargo.», sugeriu a deputada, ciente de que, se não pode tirar os juízes do Tribunal, pode ao menos instalar na populaça, redireccionando a lógica que lhe aplicam ao governo mas de que este sempre, em boa dança do ventre, se finta, de que ninguém se pode escusar ao escrutínio. Mas Teresa Leal Coelho, que não é idiota, sabe bem que quis dizer mais do que isso, fingindo escudar-se no forte do senso-comum. Porque Teresa Leal Coelho, que de idiota tem pouco, armou-se em condicional para camuflar, mas de rabo de fora, o seu imperial indicativo: «não têm condições para exercer o cargo.»

Porque Teresa Leal Coelho sabe bem, por não ser idiota, que o governo também não se rege por este seu conselho, ou já teria sucumbido antes, já se teria afastado, alegando não ter condições para exercer o seu cargo. Pode até o Passos dizer que foi eleito, o Portas vociferar que tem legitimidade dada pelos portugueses, mas nesse momento todos se esquecerão da recomendação de Teresa Leal Coelho. Afinal, todos estão sempre em xeque, porque «quem exerce em órgãos de soberania deve estar disponível para o escrutínio», e o escrutínio, meus senhores, não se pode limitar ao papelinho na urna de 4 em 4 anos, erigido sobre falsas promessas e programas eleitorais forjados.

Assim, por ter preferido tomar a tribuna em vez de se remeter ao silêncio, Teresa Leal Coelho conseguiu, não sendo idiota, confundir-se brilhantemente com eles.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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