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Apesar dos poucos dias de competição, o Mundial do Brasil tem tido algumas surpresas: ao contrário dos últimos mundiais, os jogos (talvez devido ao clima e ao cansaço acumulado dos jogadores) têm sido mais abertos, disputados e emotivos; os estádios, apesar dos protestos, têm estado cheios; tem havido muitos erros de arbitragem; a toda-poderosa Fúria espanhola teve uma estreia desastrosa; a promissora Costa-Rica fez um brilharete frente ao bicampeão Uruguai; e surpresa das surpresas: Maxi Pereira foi expulso. No meio disto tudo, não considero o favorecimento ao anfitrião uma surpresa, é de praxe nos Mundiais: quem não se lembra da Coreia do Sul em 2002 ou da Argentina em 1978?

Todas estas novidades são de realçar. Contudo, outra claramente chama a atenção: muitos adeptos brasileiros estão a torcer contra a sua própria selecção. Uma situação realmente inédita – quase tanto como a expulsão de Maxi – e que me causa uma enorme estranheza.

Desde criança por questões familiares aprendi a apoiar dois países nas grandes competições: Portugal e Brasil. Muitas vezes discordo das convocatórias, dos esquemas das federações, dos lobbys de empresários e certos clubes e perco sobremaneira o entusiamo com que cedo o meu apoio, mas nunca deixo de o ceder. O Mundial pode ser nas Ilhas Maurícias, no Taiti ou no Uzbequistão que o meu apoio será sempre para os mesmos. Se ganharem ficarei feliz, se perderem paciência: quem fica com o dinheiro são eles, o Jorge Mendes, a Nike e cia e no final vão todos para umas férias de luxo que o adepto sofredor nunca poderá pagar.

Não resisto a um Mundial porque a ideia de juntar os maiores craques do mundo, num mês com dois e três jogos por dia, com surpresas a tombar gigantes, desconhecidos a fazerem história e emoção a rodos faz parte do que de melhor o futebol tem para oferecer.

Óbvio que o lado negro do desporto também está presente na competição. Mas para contornar isso é preciso organização e decência de quem recebe o evento, para que os mandos e desmantos da afortunada FIFA não desequilibrem uma balança que deve favorecer entidade e país organizador.

Se há coisa que o Brasil e o brasileiro não têm é organização, decência e acima de tudo honestidade. Estamos perante o mundial ideal para a FIFA encher os cofres e ressarcir meia dúzia de cabeças, ignorando os prejuízos monstruosos que os gastos e os elefantes brancos vão deixar no Brasil. Tudo isso é censurável, mas não é à FIFA e nem à selecção brasileira que o povo se deve atirar e sim a quem o gere.

E deve, a acima de tudo, censura-se si próprio porque critica, protesta, esbraveja mas no fundo é o reflexo da sua classe política: chico esperto, matreiro (no Brasil bom e inteligente é aquele que trapaceia e tira vantagem do golpe. O honesto, aquele que cumpre as regras, é trouxa), vendido (qualquer bolsa família serve para comprar votos) e incoerente – se for preciso queixa-se do tráfico de droga mas não se inibe de o alimentar com o “baseado” ou a passa da praxe.

A comparação entre tradicionais festas brasileiras e a dispendiosa cerimónia de abertura do Mundial criada pela belga Daphne Cornez

A comparação entre tradicionais festas brasileiras e a dispendiosa cerimónia de abertura do Mundial criada pela belga Daphne Cornez

O problema do político brasileiro é o mesmo do comum brasileiro: a nacionalidade. Ele tem o mesmo defeito do cidadão canarinho, com a diferença de que tem um poder descomunal em mãos. Na valência das suas funções os problemas organizacionais que enumerei antes – de responsabilidade e honestidade – vêm ao de cima. E assim se percebe que os estádios tenham custado 42% mais do que o previsto, que cidades sem clubes de futebol herdem estádios de 68.000 lugares ou que a cerimónia de abertura mais reles de sempre tenha custado cerca de 7 milhões de euros.

Analisem os números do Mundial dos EUA ou da Alemanha e depois digam-me de quem é a culpa, se da FIFA ou de quem gere os países. No Brasil até a “presidenta” – como os ignorantes gostam de a chamar – se escondeu com medo e vergonha de falar ao povo e abrir a competição.

Meus amigos, o Mundial está feito e se vocês realmente querem protestar – desde que pacificamente – estão no vosso direito. Contudo deixo-vos dois conselhos: preparem os protestos na altura de montarem as listas para as próximas eleições e no momento de votar não se vendam como de costume.

Se não querem apoiar a selecção brasileira estão no vosso direito mas ao perderem tempo a dar apoio a selecções que competem directamente com o Brasil – como a Croácia, México e afins – estão a dar tempo de antena à competição contra a qual combatem. Portanto, se querem manter a coerência e ganhar algum crédito, varram do poder (nas próximas eleições) aqueles que levaram o Mundial ao Brasil e ignorem totalmente a competição (e tudo o que esteja relacionado com o Mundial: festas, actividades, produtos, jogos, etc). Só assim vão ser finalmente dignos de respeito.

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SONY DSCBruno Gomes

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