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Élsio Menau responde em tribunal. Élsio Menau foi acusado de ultrajar a bandeira nacional, crime público de enviesamento da integridade do símbolo representativo da soberania portuguesa – a acusação nasce devido a Portugal na forca. Foi exactamente isso que Élsio Menau fez: enforcou a bandeira lusa para metaforizar a decadência global que o país atravessa. O facto de ter sido por tal acusado de ultrajar o símbolo nacional apenas corrobora a crítica metafórica oportuna. Portugal está mesmo enforcado e Élsio apenas tirou o retrato à nação: a nação não gostou do que viu e, amesquinhada, processou-o porque a verdade dói.

A mim aguçam-me a curiosidade perplexa os crimes perpetrados no âmbito do ultraje a objectos ou símbolos: talvez eu não tenha sido, definitivamente, forjado no espírito nacionalista dos adereços. Sempre considerei que o país em si seria sempre mais importante que a sua representação num pedaço de tecido. A sua génese sócio-política mais importante que as palavras vãs repetitivas. A sua conduta governamental mais importante que a iconologia demagógica. A acção mais importante que a submissão. A ética mais importante que dissimulação. Dito isto, reconheço só conhecer ultrajes quando estes são direccionados a pessoas, instituições, empresas, associações ou países – a símbolos, imagens, berloques, aventais ou bonés, não. Simplesmente não.

Isto leva-me leva a sublinhar a catastrófica ironia de todo este processo, uma ironia que, no fundo, se auto-justifica, comprovando a pertinência certeira do trabalho de Élsio Menau. Num país economicamente depauperado pelas criminosas actuações dos seus agentes políticos e empresariais, onde a corrupção é lei, a ignorância um investimento, a saúde um luxo e a solidariedade mentira, valha-nos nossa a nossa bandeira. Porque a bandeira é um antro, santuário imagético, luz que ilumina o trilho do futuro, corpo idealizado do nosso passado – badamerda para o país, para as pessoas, para o Estado de Direito, para a Constituição da República, para os direitos, para os deveres, para a soberania. Se zelarmos pela dignidade da virgem bandeira hasteada à maré ventosa da aurora, tudo o resto pode ser sodomizado abruptamente na sua mais nuclear ontologia. Moral da rábula – desde que a representação se salvaguarde, tudo o mais pode ser cuspido na cara.

E isso, caros leitores, é também a moral desta nossa actual nação. Daí se depreenda que a metáfora realizada por Élsio Menau tenha redundado numa auto-justificação por parte do sistema judicial de um Portugalinho mesquinho, pérfido, traidor e moralmente minúsculo. A promiscuidade entre a política e os negócios pode ser uma regra diária, a Justiça uma piada de mau gosto, a Saúde uma assassina, as assimetriais sócio-económicas gritantes, a pobreza um flagelo crescente, os juros da dívida uma agiotagem sem limites – mas quem ultrajou Portugal foi um tal de Élsio, que enforcou a bandeira porque queria retratar a miséria suicida, esse recurso estilístico mais utilizado na arte de matar o país matando as gentes, atirando-as para a rua, roubando-lhes as pensões, as educações, os salários, os futuros, os filhos, a liberdade. A esses, ministros colarinhos e banqueiros, conselheiros, cangalheiros de tudo isto, tudo é permitido. Para o Portugalinho que temos, caricatura de país, a afronta está em denunciar essa vilipendiação. O Élsio fê-lo, e a lei, que eternamente dorme para os graúdos, acordou para criminalizar a sua arte, porque a verdade dói e manda a lei que a expressão se cale. Se negue. Feche os olhos, tenha medo e não pense.

É assim que nascem as ditaduras.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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