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[Informação Alergénios: Este artigo pode conter vestígios de amendoim, chocolate e frutos secos políticos.]

Não sei se o leitor já se cruzou com o anúncio televisivo em que um raptor, ao telefone com a polícia, ameaça comer os seus reféns. Nisto, dá-se um corte de plano e passamos aos reféns: um fulano qualquer os famosos M&M, o amarelo e o vermelho. Diz o amarelo para o companheiro, em jeito de segredo: ‘Ei, Vermelho…. Eu acho que ele vai comer… O Manel.»

O que tem isto de notório? É que a pequena rábula chocolateira descreve com mestria e estranha exactidão aquilo que se passa no Partido Socialista. Tal como o amendoim amarelo, também José Seguro está completamente alheado da realidade, perfeitamente convencido de que o comido não será ele.

A minha tese vai, contudo, mais longe, e quero aqui não apenas propor que José Seguro é o compridote amendoim amarelo mas também o raptor e o refém, e, com alguma boa vontade, até o redondo chocolate vermelho, que pouco convencido está do rumo que tomará toda a cena.

Primeiro, Seguro é claramente o raptor. Do PS e de António Costa, que vai mantendo agarrado e suspenso; do país, a quem priva de uma oposição organizada ao governo e capaz de se afirmar como credível alternativa com um fiável projecto; mas também de si próprio, o que o prova como maior captor. Porque Seguro também é o refém, o tal “Manel”: aquele que não supõe poder ser comido mas sobretudo aquele que está de mãos atadas, ajoelhado no chão mais pela impotência que o cobre do que por alguém lhe apontar qualquer arma. Mas Seguro é ainda, e talvez por demais, o iludido amendoim amarelo. Seguro, subitamente e contra-natura, não deixa que o cárcere o silencie, e revela-se como o palrador aflito. Prova do choque em que se afunda é, porém, a irracionalidade que contra ele acomete, e que assim lhe permite continuar a insistir, ainda que já todos tenham antevisto a conclusão da temporada, que será o outro, e nunca ele, a ser comido.

Faça-se-lhe, ainda assim, justiça, que Seguro não é idiota nem tão obtuso quanto o leitor possa querer apontar a um político: em privado, sentado no chão cego, nos ângulos mortos das câmaras e dos olhares públicos, o mais provável é que José Seguro tenham em si algo do chocolate vermelho, e conquanto o amarelo lhe vá segredando que o mais provável é que nas primárias o eleitorado coma o Manel — que, afinal, também é António –, o vermelho saberá bem, no trejeito do lábio comprometido, que do rapto apenas o Manel se safará afinal.

Da brincadeira, dos braços em contenda ao tentar chegar à arma, uma coisa apenas é certa: o PS e o país, neste momento de destinos cruzados, são os únicos a poder levar um tiro ou uma coronhada. O José, seja ele quem for no meio desta pequena rábula, terá já algo à sua espera.

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