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Podíamos até ter a melhor geração de jogadores do Mundo que não íamos lá. Podíamos até ter os maiores craques do planeta a jogar nos colossos europeus. Podíamos ter isso tudo, que não dava. Estávamos condenados à nascença neste Mundial, e condenados estamos para o próximo Europeu.

Mas pior do que a participação neste Mundial, é perceber que o futuro que nos espera é tudo menos risonho. E não se trata de desenhar aqui um quadro negro dos próximos anos da selecção nacional. Não é uma questão de pessimismo, nem são os velhos do Restelo a falar. É Paulo Bento, com os seus defeitos e virtudes, a dizer-nos o que vem por aí.

«Temos sete jogadores que não estavam em 2012. As coisas terão de ser feitas de forma gradual, progressiva. Pelo respeito e gratidão que tenho por todos, nunca fecharei as portas pela idade», assim dito, de forma subliminar, até pode dar a ideia de que o seleccionador está apenas a tentar ser cordial e simpático com os seus actuais jogadores, mas na realidade, conhecendo-o como todos nós o conhecemos, o que Paulo Bento está querer dizer é que os que pensam que o descalabro no Mundial 2014 vai permitir o rejuvenescimento da selecção A de Portugal podem bem tirar o cavalinho da chuva. 

Mas bem, comecemos pelo princípio. O princípio é a história de Paulo Bento enquanto treinador, sobre a qual já me debrucei tantas e tantas vezes. Mais ainda no que toca ao seu capítulo mais recente, precisamente na equipa das quinas. Por isso mesmo, será sempre escusado acusar-me, a mim e a este artigo crítico, de aproveitamento face aos maus resultados no Campeonato do Mundo.

Desde o tempo do Sporting, Paulo Bento mostrou ser um treinador:

1. Autoritário, mas nem por isso um bom gestor de balneário (Stojkovic, Vukcevic, Carlos Martins, etc, etc);

2. Tacticamente limitado (preso a sistemas tácticos preferenciais, incapaz de trabalhar alternativas nas suas equipas);

3. Intransigente (nas suas ideias, nas suas convicções, mas também na defesa incompreensível dos seus próprios erros);

4. Previsível (como consequência das suas limitações tácticas, as suas equipas são alvo apetecível de qualquer equipa bem orientada que trabalhe bem os adversários);

5. Teimoso (costuma dizer-se que todos os treinadores são teimosos, mas chega uma hora em que até os mais teimosos, se quiserem ganhar, têm de ceder);

5. Conflituoso (com jogadores, adversários, dirigentes e imprensa).

Olhando para estas características, vêm-nos logo à cabeça uma série de treinadores com pelo menos um, dois destes traços. Assim é, de facto, mas reunir todas elas num único técnico, é caso raro. Paulo Bento consegue essa proeza.

A era Bento na selecção nacional começou com a demonstração da sua autoridade no episódio com Ricardo Carvalho em 2011. O desertor foi expatriado pelo comandante das forças armadas que aproveitou este episódio para mostrar quem manda, não fossem haver dúvidas. Depois, na qualificação para o Mundial, o défice de conhecimento táctico do seleccionador concedeu a equipas miseráveis a possibilidade de sacar pontos a uma equipa como Portugal, tal a previsibilidade do seu esquema e da sua forma de defrontar todo e qualquer adversário.

Este Mundial, que nasceu torto desde a fase de qualificação, poderia até ter corrido muito pior para os portugueses. Deu para saborear uma vitória e uns golitos, e já não é nada mau. Porque ninguém, realisticamente, podia acreditar que era possível a Portugal apresentar-se de outra forma que não aquela em que se apresentou no Brasil. Eu pelo menos nunca acreditei, e sempre o disse.

Paulo Bento insistiu no grupo de jogadores com o qual teve relativo sucesso no Europeu de há dois anos. Teria lógica, se muitos destes craques continuassem a ser jogadores de alto nível, o que não acontece. Eduardo, Ricardo Costa, André Almeida, Raul Meireles, Vieirinha e Hélder Postiga não deveriam ter ido ao Brasil. João Pereira, Bruno Alves, Miguel Veloso, novamente Meireles, novamente Postiga, e Hugo Almeida não poderiam nunca, exibindo-se ao nível a que se exibiram, e na forma física a que chegaram à selecção, ser titulares.

Meireles aos trambolhões, o resumo da sua participação neste Campeonato do Mundo.

Meireles aos trambolhões, o resumo da sua participação neste Campeonato do Mundo.

Josué, Licá e Ivan Cavaleiro não são jogadores que tenham justificado uma chamada na fase de qualificação, da mesma forma que é injustificável a falta de oportunidades a jogadores como Anthony Lopes, Ricardo, Adrien Silva ou José Fonte.

Aqui entra uma sexta característica de Paulo Bento enquanto treinador apenas demonstrada à frente da selecção nacional, e que contrasta com a imagem de independência que o técnico sempre preservou na sua estadia em Alvalade: submisso.

Submissão aos interesses instalados, promiscuidade com agentes desportivos poderosos do futebol português. Cheguei a pensar que Bento pudesse ser um problema para a Federação, mas a coisa aconteceu exactamente ao contrário. E já não vale a pena bater na mesma tecla, porque toda a gente já percebeu.

Licá, um dos "boys" da era Paulo Bento.

Licá, um dos “boys” da era Paulo Bento.

O que fica da intransigência de Paulo Bento na sua lista de convocados, é simultaneamente, e como já aqui defendi, a negligência na construção de um plantel competitivo desequilibrado para um Mundial sem: um lateral-esquerdo alternativo (André Almeida não conta), um lateral-direito alternativo (ídem) e mais do que um médio alternativo que não Rúben Amorim. A ausência destas pelo menos três soluções foi decisiva para o fracasso neste Campeonato do Mundo.

Que jeito que tinha dado ter Adrien Silva (o melhor médio do campeonato português em 2013/14, em conjunto com William Carvalho e Enzo Pérez) naquele meio-campo nacional, jogando a 1000/hora e em todo o campo e desempenhando na perfeição a missão de 8, defendendo e atacando, recuperando bolas e lançando-as para o ataque. Corrijo – que bom que teria sido Portugal ter tido um meio-campo, sem Meireles completamente arrebentado e com um João Moutinho na pior fase da sua carreira.

Pergunta de nível elevado: Por que não foi Adrien Silva ao Brasil?

Pergunta de nível elevado: Por que não foi Adrien Silva ao Brasil?

Que jeito que tinha dado ter Antunes no jogo com os EUA, oferecendo consistência e profundidade ao flanco esquerdo português. Corrijo novamente – que bom que seria ter tido um qualquer lateral-esquerdo que não um defesa/médio adaptado.

Seria igualmente bom que a teimosia de Paulo Bento oferecesse espaço, ainda assim, a uma margem de tolerância, mais que à crítica, às evidências, como a da classe de William Carvalho no campeonato português que passou. Se assim foi para sportinguistas, portistas e benfiquistas, o que faltou ao seleccionador nacional para enxergar o óbvio? Quem não enxerga à primeira, não enxerga à segunda.

Com as limitações técnicas e físicas do grupo chamado por Paulo Bento, seria impossível para Portugal chegar longe neste Mundial. Mas seria possível para um grande treinador, com os mesmos 23 de Bento, passar aos oitavos-de-final. Porque um grande treinador, para lá das suas competências, teria sido capaz de perceber tudo isto. De perceber que João Pereira, Bruno Alves, Veloso, Meireles e Hugo Almeida não poderiam ir a jogo. E que William Carvalho, Rúben Amorim e Varela deveriam.

Assim, mais do que a queda na fase de grupos, fica o enorme embaraço da prestação portuguesa no Campeonato do Mundo no Brasil, onde deve ter conseguido ser uma das selecções com pior futebol praticado dentro das quatro linhas.

William Carvalho foi a jogo tarde demais.

William Carvalho foi a jogo tarde demais.

E agora o que aí vem? Paulo Bento não se demite, apesar de ter fracassado no objectivo por si repetidamente prometido. Uma postura, para mim, de certa forma surpreendente (olhando para a sua demissão no Sporting), e que demonstra bem a evolução (para pior) do técnico ao longo dos últimos anos. Assim, somos forçosamente obrigados a pensar que sim, que o que aí vem “é mais do mesmo”.

Seria a oportunidade de renovar um grupo de jogadores desgastados, de eliminar um «núcleo duro» que não passa de um clã de falsas amizades e subalternização a uma figura obviamente muito maior do que todas as outras. Cristiano Ronaldo pouca culpa disto terá, até porque o seu nível de exigência e profissionalismo (ao contrário dos colegas), não lho permite, mas a verdade é que a falta de ambição e endeusamento patético de um certo leque de jogadores na selecção ao melhor jogador do Mundo prejudica, não só o craque do Real Madrid, como a competitividade da equipa nacional. É por isso que defendo que, ao contrário do que muito opinion maker diz por aí, não é o Cristiano Ronaldo que tem culpa por todas as atenções se centrarem sobre ele e “coitadinhos dos meninos que assim ficam tristes”; a sua responsabilidade neste mediatismo resume-se ao seu rendimento em campo, acima de qualquer suspeita. São os outros que se tornam medíocres por, por quererem ser os “melhores amigos do Cris”, menosprezarem a sua própria performance ao serviço da selecção.

Correndo com esta gente, era altura de dar guarida à nova geração de jogadores que tem vindo a despontar e que no Europeu de 2016 estaria no ponto. Era altura de parar de adiar o nascimento de novos rostos no futebol português, tal como se tem vindo a fazer há já longos e longos anos, com tantas e tantas gerações destruídas por seleccionadores incompetentes e pouco preparados para o cargo. Era altura de ver Anthony Lopes, José Sá, Ruben Ferreira, Tiago Ilori, Rúben Vezo, Cédric, João Cancelo, Gonçalo Santos, Danilo, Adrien, João Mário, Pedro Tiba, Bernardo Silva, Carlos Mané, Bruma, Bebé e outros que tais dar os primeiros passos, ou consolidar os já dados, na selecção nacional. Era altura de deixar de lado os interesses comerciais e as influências de agentes desportivos, para dar uma segunda vida ao futebol português.

Era altura, mas tenho sérias dúvidas de que tal aconteça. Seguindo a tendência dos últimos anos, e o caminho suicida delineado pelo actual seleccionador nacional, Portugal arrisca-se a definhar por aí fora e voltar a cair para um segundo nível em termos de ranking mundial. Arrisca-se a ser de novo aquele Portugal a que já não estávamos habituados. A prestação no Brasil só me fez lembrar aqueles selecções miseráveis com um leque de jogadores muito fracos e depois uma estrela cintilante como cabeça de cartaz. Daquelas que nada ganham e só servem para encher estádios (à conta dessa tal estrela cintilante). É esse o caminho?

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??????????????????????????????? André Cunha Oliveira

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