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O acontecimento não é recente, e muito menos inédito, mas nem por isso deixa de possuir interesse para ser debatido. O humorista Bruno Nogueira cancelou o seu espetáculo na praça de touros de Montemor-o-Novo agendado para o dia 12 de Julho por ter sido, nas palavras da organização do evento, alvo de “ameaças anónimas e constantes”. Coincidência ou não, dias antes do sucedido a Associação de Tradições e Cultura Tauromáquica (ATCT) publicara no seu site oficial um manifesto contra a presença do “anti taurino Bruno Nogueira” naquele espaço.

Sem levantar suspeitas até porque somos todos inocentes até prova em contrário, é evidente que este episódio tem que ser considerado como lamentável a todos os níveis. Pelas ameaças anónimas e cobardes recebidas por Bruno Nogueira, pela ação de uma Associação que visa através de comunicado condicionar o exercício profissional de um humorista que tenta fazer o seu trabalho sem derramar uma gota de sangue, e pela própria temática que envolve toda esta questão. É que enquanto Bruno Nogueira pode ferir algumas suscetibilidades, toureiros ferem de morte animais indefesos que sofrem sem escapatória possível, para regozijo de plateias inteiras que em uníssono aplaudem uma prática digna do que de mais cruel se fazia na idade média.

Os aficionados defendem que é uma questão cultural, mas como pode uma tradição, por mais ancestral que seja, superiorizar-se aos valores éticos e morais de uma sociedade? Impressiona o facto de vivermos num país que se humilha ao abdicar da sua própria língua, aquela que outrora foi proclamada nos quatro cantos do mundo e que é (ou era) o traço mais distintivo da nossa identidade, através de um desprestigiante acordo ortográfico e que, simultaneamente, se recusa a proibir as corridas de toiros com o argumento de que estas fazem parte da cultura nacional.

As tradições, os hábitos, os costumes e as práticas comuns definem o carácter de um país e é neste sentido que a nossa legislação deve assentar sem exceção na moralidade e na ética. Bem no seio da sua paradoxal essência, Portugal foi o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte e, em sentido contrário, só no passado dia 16 de Julho de 2014 aprovou a criminalização dos maus tratos a animais domésticos. Talvez nos falte ainda abater a muralha de preconceitos que existe na distinção entre os direitos de homens e animais. A interiorização social de que, tal como nós, os animais não são coisas mas sim seres vivos urge e enquanto o paradigma não for alterado iremos continuar assistir a cada dia a mais uma tourada que envergonha a nossa racionalidade e se constitui como mais um passo atrás no processo evolutivo da nossa espécie.

Bruno Nogueira insurgiu-se contra as touradas e foi alvo das represálias que foram conhecidas, mas a solução para esta questão deverá passar por um debate público alargado e fundado em princípios éticos e científicos. Entre tantas bandarilhas cravadas no dorso e sangue derramado, estou certo de que não será difícil comprovar o sofrimento que é infligido aos toiros e esse será o principal argumento para a sustentação da proibição das touradas. A realidade deverá ser inequívoca e concisa: não há tradição ou ritual que justifique a imposição de sofrimento a animais. O sentido de humanidade do Homem tem que ser reavivado e a mudança pode começar por aqui.

diogo-taborda-desenho-e1360007654750 Diogo Taborda

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One thought on “A mudança pode começar por aqui

  1. Em relação ao vosso comentário sobre as touradas e a “barbaridade” de serem maltratados por meia duzia de bandarilhas, vocês por acaso são dos que não se preocupam (e provàvelmente apreciam) o leitão à bairrada. Não vos preocupa o facto dos ditos-cujos serem mortos à nascença? Por acaso já visitaram um matadouro, onde os animais são esfolados ainda a mexer? Além disso vocês (em geral) só embirram com as touradas quando estas passam na televisão (será por terem mais visibilidade)? Isso faz-me lembrar aquele advogado que aparecia sempre na televisão a palrear sobre os touros de morte em Barrancos.Assim as touradas foram legalizadas esse senhor simplesmente desapareceu (faltou-lhe e mediatação da TV para lhe alimentar o ego)..Portanto deixem de embirrar com as touradas porque ninguém é obrigado a vê-las. Têm dezenas de canais à vossa escolha,porque embirram com os que gostam? Vá lá, tenham juízo e vejam muitas telenovelas pois isso é que “induca” como diz o outro.Tá?

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