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Todos os guiões, regra geral, contemplam espaço para vilões, heróis e heroínas. A novela da conturbada transferência de Eric Dier para o Tottenham é caso raro, já que ninguém veste a fatiota do bem.

Um enredo que se resume a muitos desentendimentos e em que Sporting, direcção e adeptos Leoninos, Dier e Tottenham ficam em bloco no lado negro da história.

Não sai bem o Sporting porque perde por cinco tostões o seu activo mais valioso. O versátil inglês já provou em Alvalade que apenas o vice-campeão mundial, Marcos Rojo, estava ao seu nível entre os centrais leoninos. Alto, forte fisicamente, com boa saída de bola, qualidade técnica e perfil de líder, Dier tem tudo para ser um dos melhores defesas do futebol mundial. O facto de ser inglês era um bónus no valor de mercado já que os clubes do seu país despendem milhões na compra de conterrâneos tornando os ingleses nos atletas mais caros da actualidade.

No adeus de mais um menino bonito da Academia, o Sporting perde um importante activo desportivo e a sua galinha dos ovos de ouro financeira, num negócio que futuramente poderia dar outros dividendos aos leões e acaba por saber a pouco como Ilori e Bruma.

A forma como o processo Dier foi abordado desde o início pelas anteriores direcções leoninas e também pela actual tem de ser condenável. Aos 16 anos o defesa central assinou o contrato profissional que até recentemente mantinha com os leões. Era presidente do Sporting Clube de Portugal, José Eduardo Bettencourt: veja-se bem o tempo que já passou… De lá para cada Dier esteve emprestado aos ingleses do Everton, passou pela equipa B e fez quase duas temporadas na equipa A leonina com um contrato de júnior! Tudo isto ao longo de quatro épocas e com três direcções pelo meio. A Bettencourt pode-se creditar a famosa cláusula de cinco milhões de euros que levou o rapaz para Londres; a Godinho a genial ideia de o colocar na montra da equipa A sem o contrato renovado; e a Bruno de Carvalho a incapacidade de em quase dois anos de mandato renovar o contrato do atleta mais promissor do Sporting.

Dier e as últimas três direcções leoninas andaram sempre desencontrados

Dier e as últimas três direcções leoninas andaram sempre desencontrados.

A impressão exterior é de que Carvalho, Inácio e Virgílio atarefados com o caos em que encontraram o Sporting, decidiram deixar o inglês para segundo plano, precavidos por este ter contrato até 2016. Foram então renovando com casos mais urgentes, contratando outras peças para o plantel (incluindo diversos defesas centrais para equipa A e B) e Dier acabou por ser convidado a renovar apenas no início desta época.

A surpresa que os leões evocam no comunicado que sela o adeus do jogador dá a entender que desconheciam a cláusula da discórdia, o que demonstra bem a falta de prioridade dada ao novo contrato do inglês. Se realmente estavam cientes desta cláusula é incompreensível que o atleta tenha feito parte do plantel e tenha sido utilizado de forma regular, (não era titular, mas foi uma das segundas escolhas mais utilizadas de Leonardo Jardim) o que permitiu a sua valorização enquanto atleta mas que financeiramente não trouxe nada de novo ao Sporting, já que tendo destaque ou não os leões apenas receberiam cinco milhões pelo defesa central.

Apesar das direcções anteriores terem estado francamente mal neste processo, Bruno de Carvalho (BDC) e seus pares não podem apenas apontar o dedo aos outros já que tiveram tempo suficiente para renovar com o jogador e deixaram-no escapar por tuta e meia por um desacordo quanto à cláusula de rescisão. Para qualquer adepto de um clube de futebol é perfeito ter jogadores com salários baixos e cláusulas milionárias. Sabemos porém que isso não é de todo justo, muito menos para jovens com valor, mercado e clubes dispostos a oferecer-lhes muito mais. Da mesma forma que BDC se moldou aos problemas do Sporting e foi trilhando o caminho para devolver os leões ao sucesso, deveria ter sido mais sensível a este caso já que Dier – assim como Ilori e Bruma – subiu erradamente ao plantel principal com contrato por rever. Um erro da direcção anterior, mas que afecta directamente o Sporting e é nisso que esta direcção se deveria focar. O jovem inglês não poderia ter o mesmo estatuto de jovens que estão a sair dos juniores, na equipa B ou a chegar agora ao plantel principal. Além do mais seria preferível manter Dier com um cláusula de 25 ou 30 milhões do que perdê-lo por tostões insistindo nos 45. Nem todos os casos são iguais e este era particularmente especial.

Mais uma vez foge de Alvalade um jovem diamante sem que o Sporting o rentabilize desportiva e financeiramente e como de costume os jogadores são execrados na praça pública pelos adeptos leoninos. Se há casos onde os atletas foram bem tratados e saíram de forma estapafúrdia como João Moutinho, quase todos os outros têm pontos em comum.

Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma nos tempos de leão ao peito. Ambos abandonaram Alvalade a poucos meses do final de contrato, enquanto recebiam salários totalmente desfasados com a sua importância na equipa

Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma nos tempos de leão ao peito. Ambos abandonaram Alvalade a poucos meses do final de contrato, enquanto recebiam salários totalmente desfasados com a sua importância na equipa

Figo, Ronaldo, Quaresma, Dier, Ilori ou Bruma abandonaram o barco precocemente; vendidos perto do final do contrato (excepção Figo que saiu em final de contrato); sem conquistas de relevo na equipa principal; dando um lucro financeiro ao clube, longe daquilo que o seu talento poderia render; e saindo de Alvalade com salários antigos e entre os mais baixos do plantel enquanto viam diversos colegas sem qualidade e que não tinham o seu estatuto de titulares com condições salariais muito melhores.

O Sporting não ganha títulos em sequência há muitos anos, mas tem um viveiro que nas últimas décadas produziu tantos talentos que nem a propalada fábrica do Seixal e o laboratório do Dragão juntos podem igualar. Em Alvalade moram adeptos orgulhosos que não se cansam de exaltar a formação e os feitos dos seus formados nessa Europa fora, contudo não podem esquecer que ser jogador de futebol é uma actividade profissional e estes procuram aquilo que lhes parece melhor para a carreira e se tantos pensam precocemente em abandonar o clube que os formou não será apenas um defeito de carácter dos jogadores ou culpa total dos pais e empresários. A forma como os adeptos em uníssono, quase exclusivamente, se viram para os jogadores deixa passar em claro a má gestão dos jovens activos pelos dirigentes leoninos e torna aqueles que podem elevar lá fora o nome do clube em desprezados internamente. Num momento de dificuldade económica é através da imagem dos casos de sucesso da formação leonina que o Sporting pode atrair jovens craques para rentabilizar no futuro e convenhamos que vangloriar-se por formar talentos que depois se assobiam e menosprezam não é muito coerente.

Em último lugar, Eric Dier. Enquanto vestiu de verde e branco pouco ou nada se pode apontar ao jogador. Foi profissional dedicado, aguerrido, cumpridor (fosse em que posição fosse), mesmo enquanto reserva nunca criou atritos, e quando chamado à acção cumpriu com primor. Percebo o descontentamento do jogador com a actual direcção já que enquanto via tantos colegas de formação a renovar contrato e assimilava o investimento do clube em vários rivais de posição, continuava sem ter a sua situação contratual acautelada.

Tantos criticam a postura do central mas no seu lugar outro atleta poderia muito bem ter rumado a um rival e com certeza Benfica e Porto esfregariam as mãos de contentamento por levar um talento destes por modestos 5 milhões de euros e não se importariam de lhe oferecer fundos e mundos para tal. Apesar de entender o descontentamento de Dier o seu posicionamento neste negócio está longe de ser exemplar. Não gostou da proposta do Sporting e preferiu a do Tottenham? Normalíssimo. Agora dizer que o Sporting não o quis porque não igualou a proposta inglesa é patético. Ele sabe muito bem que o poderio financeiro dos dois clubes está tão próximo como o Sol e a Lua. A forma como assume a ideia de sair – “passei a pré-época com isto na cabeça” – só vêm demonstrar que a sua vontade de ficar também não era muita. Por fim abandonar o barco a dizer que foi maltratado pela actual direcção sem explicar de que forma soa quase a garotice. Se não queria fundamentar as suas acusações, mais valia ficar calado.

Em suma um mau negócio para o Sporting – sabemos todos que o clube não acaba mas fica obviamente mais fraco – para o próprio Dier – financeiramente até pode ser proveitoso mas dificilmente será primeira aposta de Pochettino – e um brinde para o Tottenham que andava a aliciar um jogador sob contrato e que consegue um grande talento por um valor irrisório. Uma novela com final que só o futuro dirá a quem sorriu mas que acaba sem bom moço e repleta de vilões.

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SONY DSCBruno Gomes

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One thought on “Guião só de vilões

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