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Notou o leitor a súbida transformação da tendência do desemprego em Portugal, ocorrida nos últimos meses? Eu notei: é a maravilha do «spin». Eu que me lembrava de um Portugal exangue, ressequido e doente da sua espiral recessiva, fui progressivamente acordando para o fim da endemia e seu resultante eclipse – Portugal está a curar o desemprego. Extraordinária trafulhice é o que se apresenta aos nossos olhos, um autêntico travestismo de contabilidade manhosa com sustentáculos pressupostos políticos, no mínimo, embaraçosos.

Antes de mergulharmos na propriedade do tema concreto, precisamos de pairar, analiticamente, sobre o quadro geral – uma abissal desvalorização da força de trabalho, acompanhada de uma induzida (e generalizada) precarização do emprego, com a cereja no topo do bolo que é abstrusa política do governo que consiste em financiar com dinheiros públicos a actividade e o rendimento global das empresas. Na gradual desvirtuação semântica e jurídica do emprego, aos poucos se vai degradando a sua definição, o seu âmago, a sua vinculação social às estruturas normativas da compreensão que temos de uma sociedade sã, na qual os princípios laborais concorrem para a consolidação de um ente colectivo justo, eficiente, economicamente viável e integrador.

Hoje o emprego é já uma área cinzenta: existem tantas sub-camadas de empregabilidade que até os denominados «ocupados» já têm um pé no trabalho, apesar de permanecerem com os dois fora do rendimento – aliás, basta não procurar emprego durante seis meses para se estar automaticamente fora das estatísticas dos desempregados, o que, convenhamos, já nem se qualifica como «spin»: é mesmo contorcionismo matemático puro e duro. O dito emprego, ou, se preferirmos um arcaismo português, o trabalho, foi já lexicalmente esbatido pelas palavras «estágio», «formação», «ocupado», «empreendedorismo», «recibo verde», «trainee», «a prazo» e até «emigração». Tudo se confunde. Isto porque a precarização laboral é reinante e foi, desde sempre, um objectivo governativo. O eufemismo que se seguiu, escrito de palavras melosas quanto hipócritas, tem ajudado a consolidar a ideologia daquele Homem Novo que tanto a globalidade neoliberal tem tentado parir: o espécime do «salve-se quem puder», o contribuinte Sísifo que se sente como peixe na água dentro de uma sociedade individualizada, laboralmente desregulada e sem estruturalidade governamental nenhuma.

Numa primeira fase, arrancou-se com as progagandas néscias dos empreendedorismos bacocos (quando um empreendedorismo se quer generalizado só pode ser de génese bacoca) e agora está-se, numa segunda onda, em plena camuflagem do nosso avultado desemprego. Entre «ocupados», desempregados de longa data, gente não inscrita nos centros de emprego, falsos recibos verdes e uma emigração gigantesca, o governo quer-nos vender a ideia de que o desemprego é cada vez mais diminuto. Mesmo que para isso precise de colocar o Estado a financiar os negócios privados das empresas – quando o IEFP providencia força de trabalho às empresas, pagando grande parte dos custos inerentes à contratação (salário), não temos mais que um simples e directo financiamento estatal aos privados, aliado à camuflagem, de base precária, do desemprego. Para quem queria emagrecer o Estado (dito gorduroso pela coligação desde o arranque da legislatura), entrar com dinheiros públicos para impulsionar uma tarefa que deveria ser inerente às próprias empresas, é, no mínimo, oleoso por demais.

Enquanto isso, grande parte do tecido empresarial dorme em cima do Estado sem lhe reaver as contribuições (Segurança Social, por exemplo) devidas, sustentando-se da flexibilidade laboral radical, de insenções tidas como forma de apoio e da generalização dos salários iníquos. O começo de uma parceria que me faz lembrar as PPP: ruinosas para o Estado e toda benefícios para os privados.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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One thought on “Camuflar desempregos

  1. Tenho a dizer que que aquilo que este governo faz, faz porque se vê obrigado a uma consolidação orçamental, e não tem culpa que durante anos PS tenha atribuído mais do que aquilo que possa, ou podia sustentar. o autor mistura aqui um pouco do presente com o passado, que me lembre PSD e CDS foram os únicos que sempre estiveram contra ppp, e só depois de começarem os azeites a chegar ao nariz é que todos se oporiam ao PS, mestre por detrás dessa desdita do passado e tantas outras, que ainda se sentem, no presente, as suas consequências,

    Tenho a dizer que apoiar as empresas é mais que esperto, pois não é só o estado que dá emprego, e se o estado não apoiasse, metade já teria fechado por conta própria.

    E não queiramos esquecer aquilo que a nossa ministra da agricultura tem feito, exemplar o seu trabalho.

    Ninguém me venha cá dizer que não. Migração??? sempre houve, se calhar não tanto como agora, mas será que portugal esteve alguma vez durante tanto tempo numa crise como esta???

    Portugal tinha um sistema para situações como esta: desvalorização da moeda, quando acontecia, bastava accionar este mecanismo e saia da crise num ápice, e agora o que pode fazer??

    O que esta a ser feito, dói mais mas é o necessário, e depois do 25 de abril as pessoas perderam a noção daquilo que é direito, e daquilo que é excessivo, por isso agora se queixam tanto, com tanto osso por ai mal dado, e tanto cão esfomeado, é impossível cortar sem ouvir alarido.

    Para além de que, aquilo que Portugal viria a assistir sempre fora claro, aquilo que Sócrates e os seus deixaram sempre esteve à disposição de qualquer português ver, quem não viu com olhos de ver é claro que se queixe tão indignado.

    Se lá estivesse outro governo fazia o mesmo, ou ainda pior!!!!
    Não venham Seguros e Costas mandar areia para a cara das pessoas.

    Mas concordo que nisto do desemprego haja alguma confusão, gente menos e tal… mas as contas são feitas como sempre foram, se o pessoal se pôs a andar, o governo não tem culpa, e de facto tem-se criado postos de trabalho, se calhar não se ganha tanto como antes, ou tanto como alguém efectivo seja onde for, mas é trabalho.

    Não venham para o desemprego porque não encontram aquilo que querem, se há tanto trabalho por aí para fazer!!!!

    Enquanto se procuram oportunidades, temos de nos safar por algum lado.

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