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The mobile phone lane for pedestrians in Chongqing, China.O tão aguardado dia chegou. O dia em que demos um passo em demasia, o passo passeante do flâneur corrompido, que já não o é, que passeia sem se passear. Andar a pé sempre foi desculpa — e talvez o último reduto — para deixar os olhos soltos vaguear sobre a cidade: a pausa entre ecrãs, quanto mais não seja para evitar o desencarapitamento do alto das nossas pernas em direcção ao passeio num mayday! mayday! aflito e esganiçado, terminando num baque sobre a calçada.

Não era, porém, de supor que a trégua pudesse durar, que os olhos pudessem gozar do cessar-fogo ecrãnico por muito mais tempo. E após algumas experiências comportamentais levadas a cabo nos EUA, a China decidiu implementar a ideia: faixas de passeio reservadas a quem anda de olhos postos no telemóvel, para que essa actividade possa ser desempenhada sem pôr em risco os outros utentes do passeio, partindo do talvez errado pressuposto de que um fervoroso “text-walker” saberá ter entrado na sua via reservada — e, bem assim, que nela conseguirá manter-se.

E o assunto é sério: afinal, e só nos EUA, feridos resultantes de “distracções ao andar” foram mais de 1500 em 2010, com necessidade de assistência médica urgente.

O que importa, porém, é menos o soneto do que a emenda. Porque a solução não se atém tanto a evitar danos como, qual novo prego no caixão, a legislar um pouco mais para que os indivíduos pensem um pouco menos, se responsabilizem por si um pouco menos, tenham consciência dos seus actos e decisões um pouco menos.

Pela minha parte, não me parece que escrever no telemóvel enquanto se anda tenha qualquer problema, para os seres conscientes e capazes de compreender que as pernas não podem desligar-se dos olhos por mais do que breves instantes, e que o embevecimento pelo conteúdo da mensagem não deverá sobrepor-se ao sítio do corpo, que é coisa que em geral aleija.

A realidade, porém, parece desmentir-me, pelo que me despeço com uma ideia igualmente boa: uma faixa reservada nas auto-estradas para os condutores que desejam enviar mensagens enquanto conduzem. Assim como no caso chinês, não se resolve o problema, mas fica desde já legislado, para que possamos todos conviver em harmonia na aparência da segurança, na aparência da racionalidade, e um pouco mais em paz connosco mesmos.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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