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Portugal certamente não será o melhor país onde viver, e talvez mesmo a bela Lisboa destino mais apetecível para férias do que outra coisa, mas se há algo de que nos podemos regozijar em Portugal será, indubitavelmente, dos episódios, das narrativas mais ou menos ababeladas que a vida pública, essa nossa existência enquanto conjunto que é vagamente aparentado, em ritmo diário nos traz à vida.

Há coisa de dois dias ficámos a saber que «independentistas das Canárias» tinham «invadido a Selvagem Pequena». Ontem, diziam-nos os noticiários que a «Marinha de Guerra» portuguesa estava «a caminho das Selvagens para travar “ocupação” dos espanhóis». Lendo um pouco mais, temos o Comandante da Capitania do Porto do Funchal a dizer que uma «unidade naval» ia a caminho para «verificar o que se está a passar, acautelar alguma segurança que seja necessária».

Mas as notícias são coisas que se devem ler até ao fim, até porque é somente aí, aliás, que o meu parágrafo inicial encontra o seu sentido.

Resumindo os trágicos incidentes que, a julgar pelas notícias e declarações em sucessão, faziam até temer pela eventual perda da soberania nacional, o que se passou foi isto: os perigosos independentistas eram dois espanhóis (sim, um mais um, dois) que, tendo desembarcado na nossa diminuta ilha deserta, hastearam uma bandeira. Portugal, sempre zeloso da sua soberania, mormente quando se trata de nuestros hermanos, decide então enviar a Marinha para «averiguar a intensidade dos protestos» e «acautelar alguma segurança». Bom, ao menos toda a intensidade protestante que dois indivíduos com uma bandeira possam causar numa ilha deserta, profícua apenas na produção de erva e rocha, assim como acautelar toda a segurança que seja necessária a uma ilha onde, pura e simplesmente, não existe nada.

Não deixa, porém, de ser reconfortante ver que as Forças Armadas se mostram mais voluntariosas na protecção das cagarras do que dos cidadãos seus pares. Assim de cabeça, lembro-me de pelo menos 15 indivíduos que, de bandeira no gabinete e patriotismo na lapela têm causado bem mais estragos do que os dois bons Canários que, diga-se, nos pretendiam simplesmente alertar para as prospecções petrolíferas naquela região, crescentemente dominada pela Repsol.

Tudo não deverá, porém, chegar a ser grande coisa, pois que o próprio Comandante da Capitania do Porto do Funchal assegurava que o navio demoraria 10 horas a chegar ao local, e que o mais provável era que, ao atingir o seu destino, os perigosos espanhóis já tivessem arrumado as malas e regressado a casa pelos seus próprios meios.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “A Selvagem Caricatura

  1. Os artigos que aqui leio costumam ser bastante bons mas este nem por isso. Revela algum desconhecimento de soberania, de relações internacionais e do que se passa, actualmente, relativamente ás selvagens. Ninguem tem nada que que andar a hastear bandeiras em território que não lhe pertence e, se tiver que vir um navio que está a 10 horas de distancia, é sempre melhor do que deixar que estas “brincadeiras” possam dar lugar a outras brincadeiras, essas sim, já sem nenhuma piada. Sendo um território, aparentemente, sem valor algum, e onde apenas existe uma colónia de cagarras, já a zona económica exclusiva que lhe está associada não é nada de se deitar fora. E para quem tem uma frota pesqueira como os nossos vizinhos espanhois, talvez seja algo em que valha a pena pensar. Nada disto é inocente, e muito menos inofensivo.

    • Caro Rui,

      Tem todo o direito à sua opinião e agradeço-lhe o comentário. Em todo o caso, agradecia-lhe também que lesse o texto no tom em que ele foi escrito. Mas olhemos às questões que refere. Quanto às brincadeiras, creio que nos levamos demasiado a sério, tudo nos parece grave, promessa de catástrofe. Creio até que a desejamos fervorosamente. Mas parece-me um longo salto a dar, de dois indivíduos que decidem hastear uma bandeira, e repare-se, sem sequer que o seu verdadeiro objectivo seja a conquista de qualquer território, passar a uma possível perda de soberania, a uma invasão, que nunca seria sequer espanhola, mas das Canárias com desejos independentistas, o que concordará ser razoavelmente diferente. Acho fantástico que nos orgulhemos da nossa extensa ZEE, mas tenho muita pena que, de verdade, pouco proveito dela retiremos. Claro que nada disto é inofensivo, mas preocupa-me menos a dimensão da frota espanhola — até porque a culpa da nossa diminuta frota é sobretudo nossa e não dos nossos vizinhos — do que o que as prospecções petrolíferas na orla da nossa ZEE poderão implicar.

      Cumprimentos e espero que continue a acompanhar o nosso blog,
      Hugo Picado de Almeida.

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