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Porque devemos ter uma liga profissional de futebol baseada no talento caseiro, formado maioritariamente por força criada, estimulada e fomentada dentro das estruturas que compõem o complexo pedagógico das academias? Porque devemos perseguir o objectivo de formar em maior quantidade, dando vazão experiencial aos jogadores formados em Portugal, fortalecendo assim a sua competitividade ao mesmo tempo que reduzimos o cota de estrangeiros presentes na I Liga? Afinal, porque razão deve o jogador português predominar em Portugal? Se a sua resposta a todas estas primórdias questões é revestida de um assintomático encolher de ombros, ler o resto que se segue será mero aborrecimento – a leitura é, assim, desaconselhada.

Caso veja nas perguntas (tão discutidas mas sempre tão laterais…) pertinência, abre-se aqui uma janela de exposição e potencial diálogo: pergunta-se, afinal, em que enquadramentos surgem estas questões? Quais os motivos que concorrem para que tais interrogações sejam necessárias nos dias que correm? Começo por dizer que este é um tema sub-valorizado que normalmente é reduzido à sua vertente desportiva, o que é, parece-me óbvio, incorrecto – estarão estas questões apenas presas a detalhes desportivos? Não. Aliás, fosse assim, não estariamos a discutir a necessidade de ter mais activos portugueses no futebol luso, contentes que ficariamos com a competitividade dos três grandes (baseada largamente em activos forasteiros). Mas o desconforto, aquele que gera tais questões, abrange maiores planos.

Plano identitário

Um deles é o plano identitário: torcer por um clube dito português mas repleto de estrangeiros (muitos deles pára-quedistas no futebol nacional) causa um desconforto na maioria dos adeptos, um mau-estar quase sempre inexplicado mas sempre banalizado a espaços; afinal, porque encaramos com estranheza um Benfica com 11 estrangeiros? Ou um Porto de igual modo? Bem, da mesma forma que suportamos a selecção nacional lusa: porque somos seres iminentemente associativos e integracionistas, em busca de referências pré-existentes que orientem a semântica do entendimento do jogo e das suas dinâmicas sociais de suporte (seja de clube ou selecção). Qual a razão porque muitos adeptos vividos (acima dos 40/50 anos) se desligam progressivamente do jogo? Exacto: porque, dadas as viscerais transformações década a pós década, perderam os seus referenciais identitários e não mais se revêem no futebol moderno – «no meu tempo é que era…jogava-se com amor à camisola e não se pulava de clube em clube...». O desconforto do plano identitário ainda existe e está neste patamar: até que ponto Benfica, Porto, Sporting ou qualquer outro clube são portugueses de facto se apenas 10/20/30% dos seus titulares habituais são lusos? Até que ponto se joga a dita liga portuguesa quando 55% a 60% dos jogadores são estrangeiros?

Na verdade, a chave é o padrão axiológico de fundo que faz-nos avaliar este plano com maior desconforto ou menor. Mas um poderá afirmar, com devida segurança, que a situação actual pode, efectivamente, desempenhar um papel activo no desinteresse pela modalidade e pelas suas estruturas de apoio identitário; é certamente mais fácil o adepto conectar-se emocionalmente com um jogador que fale a sua língua, partilhe consigo memórias colectivas, expressões, hábitos ou até o amor pelo mesmo clube (situação tida como ideal) do que identificar-se com um escandinavo, de cultura social mais fechada, menos expansiva, com todas as barreiras culturais que se colocam entre si e o adepto local. Nada disto é impossível, obviamente, mas certamente será mais intrincado e espinhoso. Dado este exemplo (ilustrativo), deixemos agora o plano de identificação sócio-desportiva.

Plano competitivo/estrutural

Passemos agora ao plano competitivo: temos uma liga nacional competitiva? Muitos dirão que sim mas dirão mal. Portugal possui um campeonato de fraca potência – em termos históricos, basta dizer que o FC Porto venceu mais de 70% dos campeonatos nos últimos 25 anos, o que atesta a assimetria competitiva da nossa liga, bem como a hegemónica liderança de um clube apenas contra a inanição de todos os outros. O Benfica, venceu 3 campeonatos nos últimos 20 anos, o Sporting 2; se isto é sinal de competitividade interna saudável e promissora em termos de pujança global, estaremos condenados. Campeonatos desta tipologia são sintoma de uma competitividade baixa, tremendamente assimétrica, o que rebaixa a qualidade do espectáculo e esvazia as bancadas – como, aliás, acontece ano após ano. Ora, este desconforto tem termos competitivos pressupõe uma preocupação de carácter colectivo: que rumo estaremos a tomar enquanto organismo desportivo de competição corporalizada nos clubes que dão vida à I Liga? Será que queremos uma liga progressivamente assimétrica, onde a vitória está somente ao alcance de quem contrata por milhões? Intelectualmente não o poderemos desejar, pois iremos contra a sanidade do futebol luso. Mas, com a secundarização da formação em prol do (arriscado) investimento em jogadores estrangeiros, essa realidade veio para ficar e…dividir: apenas 1/5 da nossa liga é competitiva a médio ou alto nível.

A prova disso? Basta olhar para o resultados europeus, onde de facto podemos medir o pulso à real competitividade da avultada maioria dos nossos clubes profissionais. É o Rio Ave, finalista de ambas as taças domésticas, capaz de bater o Aalborg, da Dinamarca? Não foi. Foi o competente Estoril capaz de bater o Eintracht Frankfurt, do fim da tabela alemã? Não. Conseguiu o Vitória de Guimarães levar de vencido o Bétis, hoje despromovido à Liga BBVA? Não. Exceptuando o caso do Braga (2010/2011) não temos, na última década, outra equipa capaz de dar nas vistas na Europa, sequer de aguentar a superior competitividade de formações do meio da tabela de outro campeonatos (muitas vezes até de menor nomeada, como o dinamarquês, belga, turco, grego, romeno…).Presos a uma dinâmica de investimento estrangeiro em valores, muitas vezes dispendiosos e até de tarimba duvidosa, os clubes lusos endividam-se na esperança de gerar mais-valias – depois de todas as vendas milionárias, em quanto se salda o passivo de FC Porto e Benfica? Vem baixando? Não, antes pelo contrário. A política da aposta no talento de topo importado revela-se arriscada e em grande parte dos casos (sempre esquecidos…) furada. Os resultados avistam-se e o Sporting é também reflexo dela. Ora, este desconforto suscita a questão:devemos nós apostar na formação, potenciando a matéria-prima à disposição? Não será este caminho bem mais sustentável, equilibrado e viável (colectivamente, a bem da Liga e da estrutura profissional e causa) para o futuro desportivo que se avizinha…onde não se vislumbram fáceis créditos vindos de bancos ‘mão largas’?

Plano financeiro/estrutural

Este plano liga-se umbilicalmente ao anterior, como pelas palavras acima escritas podemos atestar. A falta de aposta na formação não é alheia à actual e vigente política de importação de talentos – uma definha à medida que a outra predomina, alastrando-se. Enquanto isso se sucede, toda a estrutura desportiva da modalidade se dissipa no desperdício da matéria-prima que deveria ser o motor do processo de desenvolvimento futebolístico – o talento caseiro, produto do trabalho de formadores, treinadores, olheiros, clubes e direcções com visões alargadas e integradas do fenómeno futebolístico a nível pedagógico, social e profissional. Um empreendimento conjunto que não utiliza e potencia o seu recurso base disponível, está a actuar de modo erróneo no mercado em que se move: este parece ser o retrato do futebol luso, endividado, frágil, à mercê das contingências financeiras, carente de sustentabilidade económica, precário, feito de estádios vazios e futebóis descaracterizados. Não poderá o futebolista luso adquirir tanto talento como um sérvio? Ou um paraguaio? Ou um colombiano? Será assim tão líquido quanto fatal que, como diz Jorge Jesus, o futebol português descambe se a política de contratação de estrangeiros não imperar totalitariamente? Serão, nas palavras de Jesus, os jogadores caseiros assim tão insuficientes? E, se essa é a opinião, qual o motivo: simples falta de jeito genética que muda consoante os ares dos países?

Este desconforto prende-se com a vaga ideia de que o futebolista luso tem talento, é competentemente formado a um nível generalizado e aceitável, podendo de facto ser a base do desenvolvimento do complexo desportivo futebolístico em Portugal. O comum adepto desconfia que sim, tal é possível. O Sporting fá-lo, o Benfica fá-lo, o Braga fá-lo, o Vitória fá-lo, o Marítimo fá-lo, o Porto fá-lo; porque não potenciar ao máximo o índice de aproveitamento? Porque não generalizar a utilização desses activos, fazendo-os crescer no âmbito da II e I Liga, colhendo os seus frutos (desportivos e financeiros) à medida que fortalecemos a sanidade estrutural da competição, nivelando-a e tornando-a mais sustentável e menos propícia a desequilíbrios sistémicos graves? A Holanda soube sempre fazê-lo, a França também, e actualmente a Alemanha colhe os frutos dessa opção, tomada há 10 anos atrás: a competitividade da Bundesliga disparou, o poderio dos seus clubes subiu homogeneamente e a vitalidade financeira colectiva é cada vez mais risonha. Resultado? O Campeonato do Mundo no bolso, porque, de facto, isto anda tudo ligado…

Plano experiencial

Este é um plano onde o desconforto é mais visível e até tangível no comum adepto –afinal, o que tem o jovem sérvio de 18 anos que o jovem português não tem?Porque merece ele a confiança dos grandes jogos a priori? O que tem o jovem prodígio de 19 anos brasileiro que o jovem luso desconhece? Porque estão os treinadores da I Liga mais receptíveis a ensinar e adaptar um jogador importado do que um com o qual podem trabalhar e moldar diariamente na academia ou nos treinos da sua formação sénior? Qual o motivo que leva Jesus a preferir Talisca a Bernardo Silva, ou Sulejmani a Cavaleiro? Porque têm tão poucas chances de jogar (até em partidas acessíveis) Hélder Costa, João Teixeira ou Cancelo? Porque Sarr é titular no Sporting e Paulo Oliveira não, ou mesmo Tobias Figueiredo? Quando o adepto se questiona assim, tem razão para o fazer, já que em tantos casos podemos apontar falta de objectividade qualitativa que diferencie o estrangeiro do doméstico. Outra linha de interrogação credível: se Bernardo Silva não jogava no Benfica, porque mostra talento e utilidade no milionário Mónaco? E o que dizer de André Gomes, que nunca foi aposta contínua de Jesus? E Cancelo, que é tido em Valência como promissor, nunca tendo sido utilizado pelos encarnados?

A retórica dominante é uma pura falácia que apenas serve aos interesses instalados: falta apetrecho, falta qualidade, falta andamento, falta experiência, dizem treinadores e analistas sobre o jogador luso. Não se trata de uma mera mentira, mas sim de uma mentira hipócrita…ora: como podemos nós atestar da falta de talento e experiência do jogador luso se este é constantemente ultrapassado nas oportunidades por quem vem de fora? Na altura de analisar o fenómeno, todos se parecem esquecer que o peso da responsabilidade de jogar, de errar, de enfrentar a pressão, de aprender, de melhorar, é parte fundamental do processo de construção de um jogador completo, competente e qualificado. Sem a chance de jogar regularmente ao alto nível, onde terá de errar e aprender sob a exigência e confiança do treinador, nenhum jogador se torna competitivo e optimizado. Paremos então de julgar a capacidade do jogador português com base numa falácia perniciosa que encara o talento como algo inato que se descobre e, fatalmente, traça o potencial inefavelmente, em total alheamento para com todas as variáveis que materializam o processo de aprendizagem. Esta ridícula e rudimentar abordagem, para além de esbarrar de caras com a Ciência, devia ter aprendido com os exemplos doutros campeonatos, que fomentam essa responsabilidade competitiva enquanto parte fulcral do crescimento do jogador, percebendo que a experiência, a repetição, o treino real de jogo e a maximização das virtudes psicológicas (saber lidar desde cedo com a pressão, expectativas, ambição, etc…) são a chave da concretização.

Os treinadores também se querem professores…

Tão depressa valorizamos o trabalho exímio e profissional das academias lusas como desvalorizamos o talento dos jogadores lá criados: segundo Jesus, cairíamos à «terceira divisão» do futebol caso utilizássemos 6 portugueses nos nossos onzes – sim, simplesmente porque o vício a que estamos habituados moldou a configuração do nosso campeonato, nada habituado a confiar os jogos aos miúdos da formação e sim habituado a viver do crédito desmedido para contratar jogadores a 10 milhões de euros ou autocarros de estrangeiros a peso; a resposta da alternativa teria que ser gradual, mas sim, Jesus: o caminho é esse. Mesmo que isso signifique uma momentânea queda competitiva, consequente redefinição estrutural, e obrigue cada um a trabalhar ainda mais arduamente na prospecção nacional e na formação de talentos adequados às necessidades da equipa principal…Afinal, não é para isso que existem os treinadores hábeis e prodigiosos?

bruno-cardoso-desenho2-e1359913105156Bruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

One thought on “O que se quer do futebol «português»?

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