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No futebol actual o mítico número 10 é quase um animal em vias extinção. As evoluções históricas das concepções técnicas vão criando alternâncias sucessivas nos modelos de jogo e acabam voluntaria e involuntariamente por determinar novos conceitos e eliminar certas tácticas e posições de campo. Actualmente são raras as grandes equipas que jogam por exemplo, com dois avançados lado a lado e um número 10 puro a organizar jogo nas costas. Equipas de topo a jogar com dois avançados lado a lado, já é uma raridade, portanto imaginar o mítico 10 no apoio aos homens de frente, com total liberdade criativa, vai sendo cada vez mais uma miragem.

Este fim-de-semana pendurou as botas um dos mais prodigiosos números 10 que tive a oportunidade de ver jogar, um craque dos pés à cabeça que na minha modesta opinião foi um dos talentos mais injustiçados da história recente do futebol mundial. Falo-vos de um nome curto e simples que para a grande maioria dos portugueses é totalmente desconhecido: Alex.

Média estatura, tecnicamente soberbo, finalização apurada, visão de jogo acima da média, enorme qualidade de passe e um delicioso pé esquerdo: exímio nas longas distâncias e nas bolas paradas.  Eram estas as características deste médio ofensivo que brilhou com as camisolas de Coritiba, Palmeiras e Fenerbahçe e teve passagens breves por Parma e Flamengo. Sem dúvida, um dos melhores jogadores brasileiros e do futebol europeu na última década.

O “Comandante Alex”, “Alex Cabeção”, “Menino de Ouro” ou “Talento Azul” – alcunhas que acumulou por onde passou –  nunca foi aos olhos da imprensa um rapaz popular. Sincero até demais – não foram raras as vezes em que fugia do futebolês para assumir maus dias individuais e colectivos -, directo mas acima de tudo muito discreto escapou sempre do protagonismo mediático que o colocasse em destaque na selecção brasileira. Ainda assim venceu duas vezes a Copa América com a canarinha – 1999 e 2004, sendo capitão no segundo troféu – e foi líder de uma brilhante geração olímpica que fracassou na hora H – o que marcou para sempre o seu percurso – e onde era estrela maior juntamente com um tal de Ronaldinho Gaúcho. A forma injusta como nunca foi convocado para um campeonato do mundo – esteve muito perto em 2002 e 2006 – ainda repercute no Brasil. No ano do Penta, Alex foi convocado praticamente para todos os amigáveis e jogos de qualificação, titular em muitos deles e à última da hora acabou preterido pelo amigo Felipão, uma mágoa que Parreira em 2006 não sarou mesmo tendo contado com ele durante largos períodos antes do Mundial da Alemanha. Com 48 jogos e 12 golos pela selecção principal do Brasil, Alex é mesmo o jogador que mais vestiu a amarelinha sem nunca ter participado de um Campeonato do Mundo.

Aquele jeito desinteressado e subtil com que caminhava vagarosamente era sempre acompanhado de uma inteligência e velocidade de pensamento ao nível dos melhores. A liderança serena e clara que sempre exerceu no balneário, fizeram dele capitão e ídolo de quase todos os clubes onde alinhou. Nos idos 2000 esteve com um pé no Porto, mas era um homem de afectos e preferiu regressar ao Palmeiras, em 2004 e 2007 acabou por rejeitar o ingresso na Luz para se tornar um autêntico Deus na Turquia ao serviço do Fenerbahçe. Durante 8 anos em Istambul, o médio ofensivo realizou 378 jogos marcou 185 golos e fez 162 assistências. Além da magia nos relvados, Alex aprendeu turco e abraçou a cultura local, o que lhe valeu um lugar eterno no coração dos adeptos.

Inter de Milão, Borussia Dortmund, Milan e Arsenal foram só alguns dos emblemas que o procuraram durante a brilhante estadia turca, mas a simplicidade sempre foi o seu forte: ““Tive outras propostas [de grandes centros europeus], mas por várias razões decidi ficar. Tinha bons contratos, bom ambiente e tempo para trabalhar, quando me dei conta passaram oito anos”.

Desavenças com o treinador e o presidente do Fener fizeram com que decidisse regressar ao Brasil. Para trás ficaram uma estátua imposta pelos adeptos à direcção – a par do ídolo Zico é o único brasileiro a merecer tal honra no estrangeiro – e um carinho indescritível. Quando a rescisão foi oficializada, milhares de fanáticos turcos fizeram uma vigília de 12 dias à porta do ídolo, que chegou a ter fãs a dormir no jardim de casa!!

O regresso ao país de origem despertou o interesse de todos os grandes do futebol brasileiro, mas mais uma vez o coração falou mais alto e o canhoto rumou ao modesto Coritiba, emblema onde tudo começou.

19 anos depois da estreia profissional, Alex abandona o futebol incognitamente para muitos e injustiçado para quem como eu adoraria ter desfrutado de todo aquele talento, durante mais tempo e em palcos maiores. 422 golos e 1035 jogos depois o mundo do futebol despede-se de um dos últimos representantes da clássica camisola 10 e de um dos médios mais concretizadores da história do futebol mundial com registos que esmagam nomes como Maradona (312 golos), Zidane (128), Cruyff (275), Platini (224) e até matadores do nível de Ronaldo Fenómeno (420).

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SONY DSCBruno Gomes

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