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Além do tradicional subsídio de férias, os meus amigos e familiares deveriam receber anualmente um extra, uma espécie de “Auxílio Matrimónio”. Todos os anos alguém casa e quem sofre de globalização familiar acaba sempre por dar umas voltas ao mundo que sairiam mais em conta com a solidariedade do patronato.

O enlace deste ano realizou-se na longínqua África do Sul, em Cape Town. Já tinha estado em várias cidades sul-africanas e quanto mais lá ia, menos vontade tinha de voltar, mas aqui foi diferente. Em pouco mais de uma semana, vi beleza natural, organização e tranquilidade caminharem de mãos dadas. Cape Town parece um pedaço da Europa perdido na natureza africana, um Rio de Janeiro de África.

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Table Moutain coberta de espuma

Fui um visitante sortudo. Vi paisagens incríveis (aquele género de espuma sobre a Table Mountain é quase tão lindo como o Estádio de Alvalade), conheci o famoso Adamastor que tanto fazia tremer os navegadores lusitanos, apanhei um clima óptimo, comi vários Fillets, vi tubarões e baleias e ainda partilhei a praia com pinguins fedorentos.

Sempre tive uma admiração e idolatria pelo exemplo e humanidade de Nelson Mandela e aproveitando a estadia em Cape Town, não poderia deixar de conhecer Robben Island – a terrível ilha onde Madiba cumpriu 18 dos seus 27 anos de prisão. Foi um momento triste, mas muito emocionante. Quando se percebe a tortura física, mental e psicológica a que tantos homens foram sujeitos com condições atrozes num espaço tão inóspito e cruel é que temos noção da real valia do ser humano. É revoltante constatar que alguém é capaz de pensamentos e manobras tão perversas e rebuscadas com o único propósito de ferir o próximo. Não chorei por vergonha, mas vontade não faltou.

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A cela de Nelson Mandela em Robben Island

Sentir as adversidades climatéricas de Robben Island e as circunstâncias desumanas com que os presos eram tratados naquele fim de mundo faz-nos entender ainda mais a devoção mundial a Mandela. Infelizmente pessoas deste porte surgem esporadicamente, mas é nestas figuras que valem a pena que nos devemos apega para que o nosso tempo seja um lugar melhor.

Foi precisamente por duas figuras que valem muito a pena, que tantas pessoas viajaram de tão longe para assistir ao casamento mais esperado de sempre – há mais de uma década que o noivo, qual Manuel Palito, andava a fugir mas finalmente foi engarrafado.

Tendo em conta que da última vez que vesti o meu fato de gala, as costuras das calças automaticamente se descosiam perante o poder das minhas voluptuosas coxas, fui obrigado a embarcar na penosa Missão SLIM FIT. Foram momentos tensos sem enfardar bolos e sobremesas para acomodar este corpo Danone no mais puro tecido italiano. Um mal que não desejo ao meu pior inimigo, nem ao gordo do “Preço do Certo”.

O casamento foi espectacular num misto de ruralidade e modernismo impressionante. O percurso até ao local da cerimónia foi a metáfora de um verdadeiro matrimónio: turbulento, quente e repleto de percalços até atingir águas mais calmas.

A paz de espírito e a humanidade reinaram entre os presentes graças aos ensinamentos de Frei João, o sábio dominicano que abandonou o mercantilismo do mundo empresarial para se dedicar ao sacerdócio e à palavra do senhor e aceitou como primeira missão celebrar o matrimónio gratuitamente – apesar das insistentes oferendas dos pais dos noivos.

A cerimónia correu na perfeição muito graças ao trabalho do Lord inglês Barry White, um refinado “weeding planner” com uma experiência quase tão vasta em organizar matrimónios como a do Jorge Jesus em mascar pastilha de boca aberta. A emoção e o nervosismo dominaram a mãe da noiva que para se conter entregou-se logo pela manhã, juntamente com a sua solidária irmã, aos malefícios do álcool, sem problemas de maior como mostra o vídeo abaixo:

 

A noiva Zuleika Van der Still – nome muçulmano com um toque europeu (para não perder as raízes) que escolheu após o matrimónio – estava deslumbrante, qual Ingrid Bergman, e acompanhada pela sua bela e fiel irmã Croquitti Middleton, chegou ao altar onde o seu sensual Inácio, qual Príncipe da Pérsia, esperava ansioso pela junção dos trapinhos.

Depois de ver aquele belo casal, elegante e sofisticado pronto para contrair o engarrafamento, percebi a generosidade do tempo e o porquê de termos esperado tantos anos por este momento.

Imaginemos que este casamento se realizasse alguns anos atrás e em vez de fato bem cortado e de uma aparência cuidada, teríamos um rapper indiano de buço humilde e com caracóis à Marco Paulo – como foi lembrado na cerimónia – com um lenço decorado com feijões coloridos a cobrir-lhe a cabeça. A esquelética noiva provavelmente traria as suas melhores calças boca-de-sino, com um top a combinar com o cinto e com as gigantes argolas nas orelhas, que seriam ofuscadas pela quantidade de gel com que iria colar os seus caracóis à cabeça. Sim, eu disse caracóis! Naquele tempo não havia chapinha…

Devido à dificuldade em encontrar informação fotográfica que documente o meu pensamento, recorri às mais elevadas tecnologias informáticas para mostrar os noivos que poderíamos ter tido e aqueles que felizmente tivemos. Aqui está:

À direita o que foram os noivos e à esquerda o que poderiam ter sido. Obrigado tempo!

À direita o que foram os noivos e à esquerda o que poderiam ter sido. Obrigado tempo!

 

Gostava de mais uma vez salientar a simpatia deste casal para com todos os convidados. Em especial para com a prima perturbada que além de ter sido convidada teve direito a um bolo e mais uma vez ficou com o bouquet, desta vez sem agredir ninguém e apenas com muito treino. Está aberta a caça ao alemão e encerrada a missão SLIM FIT. Finalizei-a degustando cerca de nove fatias do maravilhoso bolo do casamento, antes de me despedir da Cidade do Cabo que minutos depois de eu ter entrado no avião, começou a arder. Como diria o mestre Taveira: Vá querida já está, já  está… Não chora… Não chora…

Aos meus queridos e valorosos noivos o desejo de muita sorte. Quem tem a vossa qualidade só precisa que o destino lhe sorria para encontrar a felicidade.

PS: Apenas um reparo, a música “Thinking out Loud” do Ed Sheeran é uma bela canção mas a primeira dança merecia a melodia que sempre embalou este romance e que curiosamente é interpretada por um pagodeiro oxigenado pelo qual a noiva suspirava todas as tardes de sábado enquanto assista ao mítico programa do Raul Gil.

 

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SONY DSCBruno Gomes

8 thoughts on “Cascata da Boa Esperança

  1. Boa Bruno! Captas-te a essência de Cape Town e do casamento.😄
    Exageras-te com o vídeo da mãe e da tía da noiva, é isso que ainda não nos ouviste cantar rancheras ….😂😂😂😂

  2. Durante muitos anos, por qualquer instituição que passasse era sempre o escriba de serviço. Fazia-o com naturalidade, convencido de que me estavam a castigar, pela irreverência das minhas intervenções quer enquanto estudante, quer mais tarde “quando de reunião em reunião se construia o socialismo”
    Depois nas tertúlias da época em bares e restaurantes, quando a cerveja já rodava célere, arriscava uma poesia, estranhamente algumas votadas vencedoras, escapando assim ao preço de mais uma rodada. Não me considero poeta mas sim um “escrevente”…mas sempre que posso desembrulho uma, nunca agrado a todos, mas quem agrada a todos?
    Normalmente não comento os escribas da nova geração, anónimos e potenciais escritores aninhados na sua clausura geradora de pensamentos, conceitos sobre o que sente e vê, por vezes de forma tão violenta que os tornam ausentes e até taciturnos ou não seria o pensamento uma forma de clausura, que nos corrói as entranhas até que quando menos esperamos ele flui na ponta dos dedos. Assim nascem os escribas do modernismo. Bruno ilumina-nos com a luz da esperança, não do que viu e escreveu, mas do que sentiu e não pode escrever. Nascem assim os grandes escritores. È uma honra para este pobre escrevente ler-te e ousar comentar-te. Um abraço

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