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Passos Coelho deu respaldo à teoria dos «cofres cheios» da ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, e logo o assomo salazarista ‘salazarento’ subiu-me à cabeça: regredimos meio século e estacionámos, não só política como socialmente, no hipócrita paternalista Estado anti-social da virtude sôfrega. O país, ardido mas ainda em insistente combustão dantesca, encontra-se para lá do limiar do miserável, mas o Governo de coligação parabeniza-se com os incógnitos «cofres cheios», expressão vaga que, tecnicamente, vale tanto como nada.

Desde logo, a ideia de aludir aos «cofres» em tom vanglorioso é tão bacoca quanto mesquinha: à semelhança de uma economia de meia-tigela, do qual o executivo claramente se orgulha, Portugal retrata-se assim como o poupado Estado Novo, de cofre cheio de bafio enquanto o país, estagnado e decadente em todos os seus sectores, viola constantemente as mais elementares práticas governamentais em termos de equidade, progresso sócio-económico, apoio estatal e regulamentação financeira. O cofre está cheio mas o país está depenado, vivendo uma regressão democrática que voltará, à semelhança da ressaca do Estado Novo, a colocar Portugal num cenário de incomensurável retardamento global que levará décadas a corrigir.

Esta ideologia mesquinha, assente uma retórica punitiva, descreve limpidamente o verdadeiro reflexo deste governo: de volição unilateral e ditatorial, o executivo PSD/CDS governa as finanças portuguesas como se de um cofre pessoal se tratasse, amealhando supostas riquezas para depois as contabilizar, salpicando os gordurosos dedos na língua e gabando-se de um feito vazio concretizado às custas de um autêntico saque contributivo que praticamente esgotou toda a classe média portuguesa e relegou para o «assistencialismo» caridoso as faixas mais pobres da nossa sociedade. Um país de esmolas que vive bem com a caridade que de consciência tranquila dispensa, ao invés de tratar condignamente os seus – as bases da decadência futura estão consolidadas.

O Governo governa para si e para quem, na prática, o ordena – Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu, os cabeças-de-cartaz da podre e atentatória União Europeia e as cúpulas internacionais da alta finança (agências de «rating» incluídas). E a glória pedante dos «cofres cheios» traduz na perfeição esse servilismo de pequenas figuras de chefia castrada que se regozijam com as contas de merceeiro onde o excedente apenas existe para servir os interesses externos de um monopólio financeiro com laivos fascistas. Porque, sabemos de prática recorrente, esses «cofres cheios» guardam uma virtude que apenas serve como pagamento, inflacionado, dos juros agiotas, que, lá fora, a dita «ajuda externa» cobra.

Entre PPP’s e juros da dívida (que nos levam a maioria do bolo contributivo), temos o contribuinte português, perdido no meio da graciosa matemática robótica do Governo, tão mecânica quanto corrompida. Drenar descaradamente o país é a única tarefa que o este executivo sabe fazer, mesmo que, para encher os cofres com um regozijo estéril cheio de vácuo, tenha de condenar a nação a uma eternidade de decadência que envergonha qualquer adepto do Estado de Direito. Sim, porque o tempo passa mas bem mais devagar volve quando a miséria se torna companheira de quem olha para o relógio da impaciência miserável. Fomos condenados antes pelas incompetências do bloco central mas esta coligação quis acentuar a pena: Portugal já não está só preso, é um «dead man walking».

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Bruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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